''A tecnologia é aética por natureza; a economia, por necessidade; a política, por conveniência.''

Joelmir Beting, em ''Aldeia Terra I'' (1972)


A bordo da rio + 100

Talvez em 2102 o planeta sem juízo caia na realidade de um alerta pintado em 1972 e ordenado em 1992: não há crescimento infinito dentro de um espaço finito assim como não há suprimento infinito de um recurso finito. Os netos dos nossos netos já estão desfalcados de um hábitat global decente.

A metáfora é pertinente. Nesta travessia de 2002, segundo o ''pop-clock'' da ONU, somos 6 bilhões e 240 milhões de passageiros a bordo da espaçonave Terra I em sua viagem sem-fim pelo Universo. Com três problemas grávidos pela proa sideral.

Primeiro: os passageiros a bordo continuam reproduzindo-se ao ritmo da aritmética dos coelhos. Vamos duplicar a lotação da espaçonave ainda neste século. Pior: por sobre a depuração da fome, da doença e da guerra, o coeficiente demográfico dos pobres é quase duas vezes maior que o dos ricos.

Segundo: não haverá parada técnica para o reabastecimento das provisões de bordo. Teremos de sobreviver unicamente com os recursos disponíveis na espaçonave - os renováveis e os finitos já em exaustão.

Terceiro: a tripulação da Terra I, a classe política, é constituída de 70% de incompetentes e outros 30% de indiferentes.

Ela dispensa à moderna poluição da riqueza o mesmo grau de tolerância que há milênios concede à poluição da pobreza.

Que o diga a Rio + 10, instalada ontem em Johannesburgo, África do Sul. Promovida pela ONU, com crachá de Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio + 10 coloca 189 países ao redor da mesma mesa quadrada para dar tratos à bola quadrada lançada pela Rio-92. De resto, um trabalho de 12 Hércules: como reverter ou pelo menos reduzir o processo de degradação ambiental em escala planetária.

Da Rio-92 emergiu uma listagem de tarefas para execução até 2002 por todos os países signatários. Cada país, definindo seus deveres (e direitos) em documento chamado Agenda 21.

Para a socióloga Aspásia Camargo, da equipe de articulação da nossa Agenda 21, o principal fruto da Rio-92 não pode ser medido em litros, metros, quilos e cifrões: o do despertar da consciência coletiva, sem fronteira, sobre o alcance, o formato e conteúdo do chamado desenvolvimento sustentável.

O secretário-executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, Fábio Feldman, diz que desde a Rio-92 se depurou em meio mundo uma percepção já madura de que os problemas, impasses, desafios e soluções no campo minado da questão ambiental não mais fazem distinção de países ricos, pobres e remediados. Nem de cidadãos excluídos ou abastados em cada um desses países.

O negócio, pois, é desviar nosso Titanic telúrico da atual rota de colisão com o iceberg. Um urso polar mandou avisar que o iceberg não pretende mudar de curso. Por enquanto, o mar está calmo e a noite rola animada no salão de festas da primeira classe.

Secos & Molhados

Decolagem

Ambientalistas céticos, em estrepitosa maioria, sustentam que a Rio + 10 será um grande avanço político se conseguir abrir o sinal verde para a execução da Agenda 21 por pelo menos dois terços dos 189 países.

Descrédito

Peritos em carpintaria diplomática entendem que não se deve contar com resultados animadores em qualquer fórum da ONU. A torre de Babel permanece ativa e a questão ambiental é tecnicamente complexa sobre ser politicamente abrasiva.

Protocolar

Caso do Protocolo de Kyoto, o do combate ao Efeito Estufa. Costurado a partir da Rio-92, o Protocolo ainda não passou do protocolo. Só foi ratificado por 77 dos signatários de sua carta de intenção. O governo Bush rasgou o tratado em 2001.

Tudo ou nada

Os países pobres correm o risco de embarcar na poluição da riqueza sem antes remover a poluição da pobreza. Em São Paulo, contemplo da minha janela uma calota química de monóxidos e dióxidos por sobre a favela sem esgoto do outro lado do rio sem vida.

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