''O déficit público não é de caráter fiscal nem financeiro. O déficit público simplesmente não tem caráter.''

Mário Henrique Simonsen (1935-1997), economista

Assunto proibido


Estamos evoluindo. A campanha presidencial de 2002 trocou o escandalômetro político e o denuncismo recíproco, antiga dobradinha do palanque eletrônico gratuito, pelo foco em problemas fiscais, econômicos e sociais. Até um obscuro plebiscito da Alca (que bicho é esse? - pergunta-se 97% do eleitorado) virou exortação favorita de dois candidatos nanicos de voto e de cuca.

Bem, não se pode entrar no mérito da qualidade da discussão sobre nossos desafios de monta. A pauta é séria, mas o viés necessariamente eleitoreiro ou demagógico nos tratos dela dá carona a disparates anedóticos. No mínimo, propõe-se em bloco um salvacionismo bíblico feito de uma soma das partes invariavelmente bem maior que o todo. De preferência, exibição de metas sem garantia de meios.

Ocorre que a questão central da sociedade em transe está banida propositadamente do tablado eleitoral: a bomba-relógio instalada no ventre da Previdência Social. Assunto tratado ontem nesta coluna. Retomado hoje porque faltou rechear o conteúdo contábil desse impasse nacional.

Do fim para o começo: o rombo montante já é da ordem de R$ 66 bilhões. Eis o epicentro do déficit público que aciona a dívida pública que aumenta o risco que eleva o juro que atrofia o crédito que sabota a produção que descarta o emprego que deprime o salário que rebaixa o consumo que desfalca o futuro... Uf! Dá pra tomar uma Selic antes?

Uma reforma tempestiva do sistema de seguridade social em bancarrota deveria ser o item primeiro da agenda do próximo governo e do próximo Congresso. Portanto, a medida da intenção política e da competência técnica de cada candidato e de cada partido. Certo?

Pois justamente esse desafio menor desfila o discurso menor.

Por uma simples e triste razão, aqui comentada ontem: a classe política camaleônica de direita, de centro e de esquerda tornou-se refém do corporativismo estatal movido a privilégios no ''front'' da seguridade social. Em tese, refém de 16% do eleitorado nacional de 115 milhões de votantes.

A radiografia atuarial do sistema sem futuro aponta para um colapso com data marcada: 2017. A partir daí, a atual geração de segurados estará deixando a próxima dependurada na brocha, sem a escada.

Do rombo corrente de R$ 66 bilhões, os segurados do setor público entram com R$ 48,8 bilhões e os segurados do setor privado com R$ 17,2 bilhões. O detalhe: os primeiros representam 17% do universo sob proteção, mas respondem por 55% do déficit total.

Dá para encarar essa fera fora da jaula no delírio eleitoral gratuito, o do horário nobre da televisão? Ou será que defender os direitos legítimos e fraudados da maioria constitui uma aposta impopular? Ou só será ''bom de voto'' continuar protegendo direitos legais, pero amorais, legislados até mesmo em causa própria no Congresso e no Judiciário?

SECOS & MOLHADOS

Esparadrapo

A hemorragia crescente da Previdência é tamponada por novos títulos da dívida pública e por novas garfadas da carga fiscal. A primeira atiça a lareira da inflação e a segunda veste a camisa da recessão. De brinde, quintuplica o tal de risco País, rastilho do terrorismo cambial importado.

Concentração

Sintam o alcance do estrago. O terreno minado da Previdência (com aposentadoria média de 14,1 salários mínimos no setor público e de apenas 1,7 no setor privado) é um atalho para a péssima distribuição de renda no Brasil. Até porque rombos cobertos por impostos crescentes e indiretos que tratam igualmente os desiguais nos terminais do consumo.

Lei do silêncio

Você sabia que o pobre sem emprego e sem INSS nem FGTS paga 29,4% de impostos nos remédios que se obriga adquirir? Ou 32,6% no leite em pó que garante a mamadeira do filho sem creche? Pois todos os candidatos fogem desse assunto abrasivo como fugiriam de um flagrante em motel da marginal.

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