JOELMIR BETING
''Política é a arte de administrar o circo a partir da jaula dos macacos.'' Henry Louis Mencken (1880-1956), jornalista americano
Delírio eleitoral gratuito
Um candidato à Presidência da República, cujo nome aqui é poupado, promete salário mínimo de R$ 1.500 a partir de 1.º de maio. Em tempo, a Previdência acaba de informar que o salário médio do País, o do trabalho formal, com registro em carteira, virou o semestre em exatos R$ 769. O leque nacional vai de R$ 987 em São Paulo a R$ 489 na Paraíba.
A mesma Previdência confessa que, na ponta dos benefícios adquiridos, não está conseguindo sequer pagar salário mínimo de R$ 200. A venerável instituição acumula déficit montante da ordem de 5% do PIB no próximo governo. Déficit cavado pelo tratamento privilegiado dispensado aos servidores públicos e não mais coberto pelo aviltamento progressivo dos benefícios achatados do setor privado verdadeiro estelionato atuarial a céu aberto.
A própria migração da força nacional de trabalho para o mercado informal que subtrai receita da Previdência fora de esquadro tem a ver com a contribuição previdenciária pesada e sem retorno incrustada na folha de pagamento das empresas.
E o que dizer do empenho adicional dos segurados do setor privado na contratação de planos de previdência aberta complementar em bancos ou em fundos corporativos fechados (fundos de pensão)? Pois o diligente Congresso Nacional nem sequer consegue, há cinco anos, introduzir a previdência complementar no setor público só para servidores ainda não contratados... Só vale fundos de pensão para estatais devidamente subsidiados.
Se um presidenciável com Q.I. de minhoca aparece no delírio eleitoral gratuito, o do horário nobre da televisão, sustentando o maior disparate da picaretagem eleitoreira ''em nome da causa operária'' os demais candidatos, bem equipados e assistidos, fogem covardemente (ou astutamente?) da reforma previdenciária nos programas, nos debates, nas entrevistas e nos palanques.
Lógica política pusilânime. O popular, segundo ela, é sustentar privilégios da minoria (16%) em detrimento da maioria (84%). Maioria que perde não só no seguro social que não existe, mas igualmente no arrocho salarial decorrente.
O próprio salário mínimo, indexador de outros contratos de renda do trabalho, está sendo de há muito achatado, não pela capacidade de pagamento do setor privado, mas pela incapacidade de pagamento do setor público. Ou se preferem: achatado não pela ganância do mercado, mas pela gastança do governo.
Ora, se o déficit público tem como pau da barraca o passivo previdenciário e se o déficit contrata a dívida e a dívida é o DNA da dependência nacional ou da vulnerabilidade externa temos que pelos rombos do INSS também passam lampeiros a especulação cambial e o arrocho monetário supostamente corretivo - uma e outro produzindo mais carestia, mais recessão, mais desemprego, mais desesperança.
Secos & Molhados
Pinóquio
Qual é o problema? No delírio eleitoral gratuito, os candidatos botam a culpa no FMI e lavam as mãos feito Pilatos. Vestido de Pinóquio.
Proteção
Que tal a gente apelar de baixo para cima para um Código de Proteção do Eleitor, na mesma linha do Código de Defesa do Consumidor? Dar-se-ia carona, nesse rompante da cidadania fraudada, a um Código de Proteção do Contribuinte.
Cercando
Já temos a Lei de Responsabilidade Fiscal, que prefiro chamar de Lei de Responsabilidade Moral (nos tratos das contas públicas). Com um Código de Proteção do Eleitor, haveria uma Lei de Responsabilidade Eleitoral.
Punição
No delírio eleitoral gratuito, pela TV, dar-se-ia o flagrante ou o comprovante da mentira, do engodo e da fraude. Com cassação da candidatura em rito sumário.





