''Só vou acreditar mesmo que um Banco Central é verdadeiramente independente no dia em que ele deixar um Tesouro Nacional falir.'' José Alexandre Scheinkman, economista

Estão precificados

Quando a especulação cambial não tem desculpa, ela inventa pretexto. É do jogo. Tanto mais, quando a manada dos investidores retardatários ostenta posições supostamente defensivas com dólar bem acima da chamada taxa efetiva real de câmbio. É o que ocorre no Brasil para quem entrou no dólar já então acima de R$ 2,70.

Pois de exatamente R$ 2,70 é a cotação que o próprio mercado cambial projeta hoje para o último dia financeiro do ano. A projeção estava rodando a R$ 2,60 há três semanas, véspera do pico paranóico de R$ 3,60. A megatransfusão suplementar do FMI, esnobada pela especulação, não foi suficiente para impedir que a projeção evoluísse para R$ 2,65 na semana passada e para R$ 2,70 nesta semana.

Projeção do próprio mercado. Que mercado? O dos nossos 100 maiores bancos e consultorias financeiras. Não é chute nem aposta. É prognóstico seguro movido a diagnóstico técnico. São instituições que de fato fazem o mercado a futuro. Elas têm massa crítica para investir em projeções auto-realizáveis de sua própria lavra.

Quem faz a captação semanal das previsões de indicadores diversos (incluído o câmbio) é o Banco Central. A coleta é feita no fechamento da semana financeira e os resultados são divulgados na abertura da semana seguinte. O relatório chama-se Focus e está disponível no site do Banco Central (www.bacen.org.br).

Tenho dado tratos a essa bola semanal porque estamos em meio a um estúpido tiroteio cambial. O Focus é o melhor ou o único radar disponível para quem deseja enxergar pelo menos meio palmo na cerração. Não é a opinião por telefone, ao fim de cada dia, de meia dúzia de operadores de bancos - que uma certa mídia teima em chamar de ''mercado''.

Em outubro do ano passado, por exemplo, enquanto o tal de ''mercado'' projetava para o ''réveillon'' dólar acima de R$ 3,10 (já estava, então, acima de R$ 2,80), o Focus divulgava, para descrédito geral, projeção de R$ 2,34. Esta coluna apostou todas as fichas no Focus e deu no título, ainda em outubro, Dólar a R$ 2,34 (lá na ponta de 29 de dezembro).

Que ousadia, a minha. Tenho no arquivo centenas de e-mails coléricos e malcriados, incluídos os de profissionais do mercado... Bem, de fato o Focus não acertou e eu, por arrasto, também não. O dólar acabou fechando o ano não em R$ 2,34, mas em R$ 2,31. De novo, o desafio: dá para acreditar em dólar a R$ 2,70 no próximo Natal do respiro nacional?

Não! - questiona a manada. Desta feita é diferente! Ainda nem sabemos quem vai ser o novo presidente! Que leva jeito de Lula, com opção de Ciro. Ocorre que o mercado coberto pelo Focus afirma já ter embutido no dólar a R$ 2,70, em dezembro, o efeito eleição, em outubro. Ou como diz Oswaldo Pessotto, consultor financeiro: ''No câmbio a futuro, Lula e Ciro já estão devidamente precificados.''

Secos & Molhados

Vigília geral
Hoje é dia de Copom. Ou dia de mexida ou não, assim com aviso prévio, na taxa básica de juros, vulgo Selic. A aposta de quatro em cada cinco analistas do ramo é a da manutenção da taxa em 18% ao ano (com viés de baixa). Agora, por obra e graça da ''tensão inflacionista'' da bolha cambial.

Não é mole

Os técnicos do Banco Central sabem que não existe terceira via. Se não baixar a Selic, o Copom será apupado por covardia, vulgo ''excesso de cautela''. Se rebaixar a taxa, aí será desacreditado como autor, não de uma decisão técnica, mas de uma medida política. Ou eleitoreira.

Fantasminha

No mais, tome nova discussão estrábica sobre o poder da Selic no controle do IPCA. Inflação sabidamente usinada por preços monitorados pelo governo e não pela massa três vezes maior dos preços negociados pelo mercado. A Selic não alcança os primeiros.

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