''Estou, sim, confiante e atento,mas não aliviado ou relaxado.'' Armínio Fraga, presidente do Banco Central


Ruim com ele, pior sem ele
Decepcionado e entristecido com a banana chipada que o ''mercado'' deu solenemente à megablindagem cambial que o FMI acaba de instalar na carruagem do Brasil, o presidente do Banco Central (BC), Armínio Fraga, disse à imprensa, quinta-feira, que o Brasil tem tempo, tutano e reserva para fazer do nariz torcido dos especuladores uma aposta de altíssimo risco.
Faltou dizer: o risco dólar, nesta altura do calendário, é bem maior que o risco País. Até porque o tal de risco País não é o risco do Brasil, mas o risco de um certo título do Brasil lá fora, a juízo de um certo Emerging Markets Bond Index, produzido minuto a minuto pelo JP Morgan. Cujos jovens analistas devem estar ungidos dos dons divinos da onisciência e da ubiqüidade.
Mercados necessariamente especulativos tipo ''spot'', de bolsas, de moedas, de barris, de metais, de carnes ou de cereais, não são técnicos. Em nome da lei da oferta e da procura, tais mercados são manipulados, não raro e quando conveniente, pela lei do enfarte e da loucura.
A resposta ao acordo descolado pelo Brasil junto ao FMI, a da indiferença ou do menosprezo, não é técnica. A lógica do jogo é a falta de lógica. Se não, cadê o jogo?
Ocorre que, para Armínio Fraga, profissional do mercado, a falta de lógica tem limite e tem prazo. Vide o estouro anunciado da megabolha da ''irracional exuberância'' de Wall Street, desde 11 de março de 2000. Dentro dela havia empresas valendo 24 vezes o faturamento ou 188 vezes o patrimônio líquido. Deu no que deu: os tais de ''mercados'', que ainda não perderam um tostão no Brasil, já acumulam perdas de US$ 10,7 trilhões no mundo ou US$ US$ 6,4 trilhões nos Estados Unidos.
Os especuladores e respectivos consultores e operadores sabem avaliar o alcance dessa cobertura de US$ 30 bilhões para a próxima transição democrática de governo - com todas as instituições brasileiras funcionando nos conformes e nos quejandos.
E os candidatos à Presidência? A reação reticente de Lula e de Ciro igualmente faz parte do jogo. Aqui, não da lógica financeira, mas da lógica eleitoreira. A lógica bizarra do piorômetro nacional, reconvocado como eficiente cabo eleitoral. De resto, lógica negativista respalpada por uma coerência histórica: a da satanização do FMI. Ou seria sensato esperar por aplausos de palanque da oposição a uma operação financeira melindrosa e vitoriosa que, em tese, veste a camisa do candidato do governo?
Não adianta suspirar, como suspira Armínio Fraga, que o próximo presidente, se rasgar o acordo com o FMI, estará cometendo um haraquiri cambial, monetário, fiscal e orçamentário.
Portanto, um suicídio político na decolagem do primeiro mandato. Não. Ultrapassado o mata-burros das urnas, o presidente eleito dirá na primeira coletiva: ''Ruim com o FMI, pior sem o FMI.''
Secos & Molhados
Sem opção - Tecnicamente, lembra Armínio Fraga (que sabe mais que ninguém do que está falando), o próximo governo não tem alternativa para a oferta ''stand by'' do FMI e Zé Fini. Logo, não adianta fazer beicinho para tumultuar ainda mais um mercado que adora ser tumultuado...
Lembrete - Disse Fraga: ''Cabe lembrar, ademais, que o ajuste fiscal já está feito, que a inflação já está sob controle, que o próprio câmbio tem cintura, que o setor bancário está sólido. Ou seja: está feita a cama para que o próximo governo passe a cuidar, preferencialmente, da retomada econômica e das reformas ainda em gestação.''
E a dívida? - A dívida pública e o passivo externo, na própria percepção dos analistas de mercado, são refinanciáveis porque de perfis razoáveis. Com risco menor que o de dezenas de outros países com classificação de risco melhor... Quer dizer: esta terceira bolha especulativa não se sutenta aí pela proa.
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