JOELMIR BETING
''A crise cambial revela o caráter imperfeito da substituição do sistema financeiro doméstico pela banca internacional.''
Otaviano Canuto, economista
Quando setembro vier
Com blindagem ou sem blindagem de transição governamental financiada pelo FMI, a crise de credibilidade externa do Brasil adernou para a crise de crédito bancário dentro do Brasil. Já lá se vão 40 dias e 40 noites de dilúvio cambial e nada de alguma Arca de Noé pintando nos estaleiros do Banco Central.
A crise é cambial e não crise bancária. Mas, por linhas tortas, a tal de ''aversão ao risco'' de bancos transnacionais escaldados (na Ásia, na Rússia e na Argentina) explica uma contração de até três quartos na oferta de empréstimos novos a empresas privadas brasileiras. Ou de quatro quintos na rolagem de contratos vincendos. Incluídos os da carteira de clientes preferenciais que faturam em dólares lá fora. Dá para entender?
Para o ''brazilianist'' Albert Fishlow, historiador que de Brasil entende bem mais que nove em cada dez consultores financeiros sentados em Wall Street, o sumiço do crédito externo da banca internacional atingiu um grau digno de um Brasil já em moratória unilateral. Freud explica? Nem Friedman.
A triste verdade é que, até prova eleitoral em contrário, o megapacote do FMI lembra a final da Copa de 1994, a do tetra constrangido. A reação positiva durou nada além de 24 horas e foi uma expressão mais de alívio que de alegria.
Dentre meia centena de explicações técnicas do tal de ''mercado'', coloco o grifo na última delas: qualquer reversão desta bolha de sinistrose vai ficar mesmo para quando setembro vier. Só no mês que vem é que teremos eventuais mudanças de curso da massa pesquisada de intenções de voto - já então ao fim e ao cabo das primeiras três semanas de horário nobre eleitoral gratuito.
Só em setembro, igualmente, é que teremos o endosso do ''board'' do FMI (agora em férias de verão) e a outorga da primeira tranche dos dólares de intervenção. Se não-intervenção indireta no câmbio gasoso, uma irrigação direta ou pontual da estiagem cambial das empresas brasileiras vendedoras ou devedoras lá fora.
Engolfados pela mesma bolha cambial que ajudaram a inflar, os bancos nacionais ainda não tiveram tempo nem tutano para refazer posições no vácuo dos bancos estrangeiros. Nossos bancos, mais sólidos e mais líquidos que nunca, não têm treino nesse terreno minado.
E o diligente BNDES? Banco estatal de fomento, ele não tem nem deve ter cacife suficiente para financiar sequer 5% dos nossos embarques totais. Mesmo com repasses agora reforçados do Bird e do BID.
E o Banco Central, com reservas de intervenção triplicadas da noite para o dia? Em nome do atual estado de comoção nacional, será que não daria para financiar nossos exportadores e/ou importadores com a mesma ligeireza com que queima divisas na lareira dos especuladores?
Secos & Molhados
- Road show - Pelo sim, pelo não, enquanto os técnicos do Banco Central estudam leiloar linhas de crédito para comércio exterior, o presidente Armínio Fraga afivela a maleta para mais um ''road show'' pelas matrizes dos ingratos bancos americanos e europeus. Ele vai mostrar, pela oitava vez em três anos, que os sinais vitais do Brasil estão nos rumos e nos prumos.
- Da memória - Armínio Fraga bem que poderia soprar duas coisas no escutador de boatos deles. Primeira: a banca internacional nunca perdeu um centavo no Brasil varonil. Nem na moratória soberana do Sarney. Segunda: essa mesma banca perdeu a banca e a grana na Ásia, na Rússia e lá mesmo em Wall Street.
- Pelas bases - Faltaria lembrar: os mesmos bancos globais hoje retrancados estão negociando contratos de ''project finance'' para o setor elétrico no Brasil. Ainda este ano, cerca de US$ 1,3 bilhão.
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