''Essa crise não pode ser atribuída a algo que o Brasil fez de errado. Os culpados por ela são as instituições financeiras internacionais.'' George Soros, megainvestidor

Sinistrose fabricada



Vale reprisar aqui: o Brasil sofre de crise cambial, mas não de crise bancária. A primeira é de caráter especulativo (ou sem caráter). Tipo bolha. Repeteco da bolha de setembro/outubro do ano passado. Ou da bolha pioneira de janeiro/fevereiro de 1999.

Pelo cheiro da brilhantina, essa terceira bolha tem data para ser exorcizada: exatamente no Dia de Todos os Santos, primeira sexta-feira após as urnas de 27 de outubro.

O próprio mercado financeiro, ator principal do câmbio flutuante, insiste em fazer projeção auto-realizável para um dólar abaixo de R$ 2,70 no último dia financeiro do ano. Uma das pitonisas do setor garantiu-me ontem que dólar a R$ 2,70, lá na ponta de dezembro, já estaria embutindo o Efeito Lula lá. E o Efeito Ciro já? - indaguei. A resposta saiu esotérica: ''Ué! Qual é o problema de um governo escorado por ACM, Sarney, Inocêncio, Brizola, Jader... Só falta o Itamar, uai!''

Uma crise bancária, que hoje assola meia centena de países, não seria uma bolha. Seria uma onda. Ocorre que o Brasil houve por bem desviar-se dessa enrascada (bankrupt) na reestruturação bancária de 1995/97. A bordo de um Proer até hoje caluniado - que salvou a grana, o sono e a saúde de 41 milhões de poupadores e correntistas sem alternativa.

Agora, perguntem à Moody's ou ao JP Morgan qual o critério técnico que lhe autoriza a conceder ao Brasil um risco País três vezes maior que o da Colômbia (em estado de guerra) para bancos, fundos e bolsas. Ou perguntem ao Lehman Brothers ou ao Eurasian Group qual é o critério que faz do Brasil, a juízo de ambos, o terceiro menor risco do mundo para as multinacionais do setor produtivo.

Sei que estou sendo recorrente ou tedioso nesse comparativo. Ocorre que estou falando sozinho sobre isso. Nenhuma palavra do tal de ''mercado'', servido pela mídia coisa-preta. Nenhuma manifestação do governo sobre esse aspecto tão favorável de nossa imagem externa. Ou nenhum lembrete da oposição sobre a mesma matéria.

Penso que seria interessante ao Lula ou ao PT espalhar que as empresas estrangeiras (que entre nós produzem, vendem, exportam, empregam e pagam impostos) não têm medo do próximo governo - qualquer que seja o próximo governante. Certo?

De olho gordo no Brasil 2010 ou no Brasil 2020, as transnacionais estão plugadas em programas estratégicos, necessariamente de longo prazo. E sem conversa fiada. Elas totalizam US$ 102 bilhões de investimentos neste segundo quadriênio de FHC e estão montadas para outros US$ 78 bilhões no próximo governo.

O problema, diria Walter Lippman, é que o jornalismo econômico virou a refinada técnica de separar o joio do trigo e publicar o joio. Exclusivamente o joio.

Secos & Molhados

- Algo podre - E tome lição de moral do megainvestidor e hoje megafilantropo George Soros, vestido com a camisa canarinho. No Financial Times, ele rasga o verbo em artigo de meia página: a) a atual sinistrose brasileira está sendo fabricada de fora para dentro; b) se nem a delirante blindagem do FMI amaina esse ataque, ''algo está errado com o sistema financeiro internacional''.

- Tristemente - Soros faz o coro da satanização do FMI. Que estaria refém da especulação hoje potencializada em tempo real e em escala global pelas tecnologias da informação e pelas políticas de desregulamentação. Para Soros, o fundamentalismo de mercado (financeiro) reduziu a pó a autoridade dos bancos centrais. Incluído o Fed americano. E cadê a autoridade supracional?

- Intervenção? - Quem diria? Soros propõe intervenções pactuadas em bloco: ''Donos de projeções auto-realizáveis, os mercados financeiros não podem ser deixados à mercê de seus próprios mecanismos.'' Ou desatinos.

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