JOELMIR BETING
''Especuladores nacionais e estrangeiros fazem da campanha eleitoral a mais cara da história do Brasil.''
Klaus Kleber, jornalista
Jogada ensaiada
Chama-se Incerteza Eleitoral Irredutível (IEI) o mais novo derivativo do mercado financeiro do Brasil. Com sobras online para Wall Street. Com blindagem ou sem blindagem avantajada do FMI. Até Finados em contrário, a especulação financeira sem fronteira nem bandeira está com o IEI e não abre.
O reparo é do colunista Klaus Kleber, da Gazeta Mercantil.
Ele observa que partidos e candidatos à sucessão de FHC já confessaram gastos de aproximadamente R$ 3 bilhões. Nada contra. O páreo é duro, a verba é do ramo e a conta é das doações. O problema está nos custos econômicos e sociais que as manobras especulativas, vestidas de ''posições defensivas'', estão impondo a 174,5 milhões de brasileiros.
Armou-se tamanho catastrofismo no rastro das pesquisas eleitorais (não menos voláteis que os fluxos de capitais) que o Brasil real se tornou pasto e repasto do Brasil do real - estupidamente desvalorizado no câmbio destravado. O Brasil que trabalha, arrisca, contrata, emprega, reinveste e consome obriga-se a sair para o acostamento da temporada eleitoral.
Os negócios estão há 14 meses desaquecidos, desde a catástrofe anunciada do apagão que não houve. Agora, por obra e (des)graça do apagão mental da chamada ''transição de governo''.
Na avaliação do ''mercado'', não dá para brincar de democracia soberana nestes tristes trópicos das repúblicas embananadas.
Então, fiquemos assim combinados. A cada quatro anos, o Brasil entra em férias coletivas do carnaval até Finados. A nação fica alugada pela eleição em outubro de 2006, com trégua para a seleção na Copa, em junho ou julho. Até lá, vamos pela quinta vez de risco Lula, batendo de frente com o risco Bush.
Enquanto isso, analistas financeiros conseguem vender para a gente a versão de que os US$ 30 bilhões do FMI não vão aumentar nosso crédito e, sim, estufar nossa dívida. A tal ponto, juram eles, que o risco Brasil vai continuar três vezes maior que o risco Colômbia (em guerra civil).
Risco para quem, cara-pálida? Para o capital volátil de bancos e fundos. E para o capital produtivo das múltis ? Well, aí o Brasil não é o terceiro maior risco do mundo decadente. Ele ocupa, desde 1997, a posição de terceiro menor risco do planeta emergente. Palavra do Lehman Brothers e do Eurasian Group.
Em se considerando que a poupança nacional, sobre ser insuficiente, está reciclada por aplicações não produtivas, temos de contar com a ração suplementar do capital externo, ainda que a título de mal necessário. Mas que capital os brasileiros preferem atrair de fora para dentro? O volátil ou o produtivo? Então, por que tamanha chantagem emocional de primeira página sobre as corcovas do volátil, sem registro das entradas do produtivo?
Pois a fuzarca cambial do primeiro tornou o Brasil, este ano, um terço mais barato para o segundo. Jogada ensaiada?
Secos & Molhados
- Rebaixando - Agências e bancos classificadores de riscos passam o trator chipado por sobre a blindagem do FMI e rebaixam, candidamente, as notas do Brasil. Parece mesmo jogada ensaiada, diriam os adeptos da teoria conspiratória. Em confronto com os pajés da terapia salvacionista.
- Da Amazônia? - O motoboy José Maria de Jesus, que se diz ''profissional de logística'', pegou-me ontem pelo braço: ''Essa turma não exigia o socorro do Fundo como condição sine qua non para melhorar a classificação do Brasil? Então, o que mais eles estão querendo? A venda à vista da Amazônia a preço de liquidação para a entrega do prédio?''
- Os fujões - Afinal, a dinheirama do FMI não vai escapulir para contas secretas na Suíça. Ex-presidente do Banco Central, Gustavo Franco escreve na Veja: ''Tranquilize-se o doutor O'Neill. Quem está tirando dinheiro do Brasil são os bancos deles por ordem dos reguladores deles.''
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