JOELMIR BETING
''Quem troca pães, volta para casa com um único pão. Quem troca idéias, volta para casa com as duas.''
Machado de Assis (1839-1908), escritor
Das bolas quadradas
Armando Nogueira, poeta da bola, reconvoca Drummond, poeta da alma: ''Bem-aventurados os que não são comentaristas esportivos. Eles não carecem de explicar o inexplicável nem de racionalizar a loucura.'' Irreversivelmente desencantado, Armando soluça: ''Se ainda desse tempo e jeito, eu trocaria de ofício.''
Ele escreve sobre a furiosa entrada em campo da internet de chuteiras: ''Parece-me que a internet foi inventada para dar asas à deselegância verbal de toda uma fauna de energúmenos. Qualquer opinião que emito no papel de cronista pode me custar ferozes descomposturas em e-mails desalmados. Se não me manifesto sobre algo, chamam-me de covarde. Quando me defino, tacham-me de oportunista. Na próxima reencarnação, vou querer distância.''
Muito bem, Armando. Também fui jornalista esportivo nos primeiros cinco anos de profissão. Precocemente desiludido, fiz baldeação para o jornalismo econômico - já lá se vão exatos 40 anos. Foi uma decisão sofrida, sobre ser temerária. Tratava-se de trocar a vida do futebol pelo futebol da vida.
Pois, olhe, caro Armando, que o futebol da vida econômica joga um jogo digno da vida do futebol brasileiro fora de campo: bruto e sujo, grosseiramente maquiado por regras gasosas e contratos porosos. No futebol, bastou um toque de dignidade pessoal para fazer de Felipão campeão nosso paizão pelo Domingão do Faustão.
Na economia ou na sociedade, cadê a Dolly do Felipão? Na raia dos presidenciáveis, se a gente juntar metade deles talvez dê para sacar um vereador para Itaquaquecetuba. Certo, a gente não deve perder de vista que a qualidade dos governos está nos funcionários que ficam e não nos governantes que passam. Até porque, como suspira Millôr Fernandes, fazendo gol de placa: ''Um povo que precisa de um salvador não merece ser salvo.''
Bem, não tentei desviar da vida do futebol meu caçula Mauro Beting, hoje multimídia de jornal, rádio e televisão. Mas aqui no futebol da vida, mestre Armando, a última palavra é hoje e cada vez mais a de Drummond: temos de continuar explicando o inexplicável à luz de doutrinas econômicas fundamentalistas.
Se até economistas notáveis torcem e distorcem a percepção e a avaliação dos eventos e das mudanças, haja discernimento para todos nós, jornalistas econômicos, ungidos à condição de faróis de neblina de investidores anônimos, empresários atarantados, trabalhadores vulneráveis, contribuintes fraudados, crediaristas inadimplentes, consumidores alarmados.
Tome-se o noticiário do dia e tente-se ''racionalizar a loucura'' do câmbio. Até quarta-feira, véspera da avantajada blindagem do Brasil pelo FMI, a cotação oscilava na face oculta da Lua porque faltavam dólares no espaço. Explicação técnica. De lá para cá, o câmbio permanece a bordo da Apollo 11 porque sobram pesquisas eleitorais no pedaço. Explicação técnica.
Secos & Molhados
- Coisa séria - Para nossa meia dúzia de ''fontes'', dito ''mercado'', não se trata de especulação nem de manipulação. Com o devido aviso prévio, eles juram por todos os juros que só vão deixar de produzir e faturar a chantagem do Brasil, aqui dentro e lá fora, após a contagem do último voto chipado, madrugada de 28 de outubro.
- Muito além - Claro, a coisa estará amainada já na altura de Finados se da cartola das urnas saltar o coelho tucano. Lula ou Ciro em contrário, aí a subversão dos cambistas ''big business'' será espichada para o depois da posse ou para o depois do carnaval. Quem sabe, para o depois da Semana Santa pero no mucho.
- Até quando? - A coisa já descambou para o terrorismo financeiro do câmbio organizado. Nos dias ímpares, contas fiscais. Nos dias pares, pesquisas eleitorais. Confesso, caro Armando, que também tenho o sonho de mudar. Não de profissão. Mudar de fonte: do Banco Central para a Polícia Federal.
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