JOELMIR BETING
''Os cidadãos brasileiros têm medo do futuro. Os políticos brasileiros têm medo do passado.''
Chico Anísio, humorista e escritor
Desvios da carestia
Em junho de 1994, último suspiro do cruzeiro, inflação deitando e rolando ao redor de 40% no mês, o salário mínimo comprava pouco mais de metade da cesta básica oficial. Agora, agosto de 2002, o salário mínimo compra toda a cesta básica e ainda pega um troco de aproximadamente um terço dele.
Na estréia do real, o mínimo era de R$ 64 para uma cesta de R$ 108. Hoje, para um mínimo de R$ 200, a cesta contenta-se com a média nacional de R$ 130. Na semana passada, o valor da cesta ia de R$ 137 em Porto Alegre a R$ 103 em Salvador, passando por R$ 134 em São Paulo, R$ 127 no Rio ou R$ 114 em Goiânia ou Natal. Palavra do Dieese.
Isso significa que a cesta básica transita abaixo da inflação acumulada em oito anos corridos do Plano Real. De julho de 1994 a junho de 2002, o IPCA/IBGE, índice oficial do regime de metas inflacionárias, acumulou 118%. Na inflação, seria exatamente essa a verdadeira desvalorização do real no período (em seu poder de compra no mercado interno). No câmbio, é outra história.
Os preços do mercado livre, mais próximos do perfil de consumo das classes C, D e E (cerca de 58% do eleitorado brasileiro), dentro e fora da cesta básica do Dieese, ostentam na carreira ponta a ponta do Real inflação acumulada de dois dígitos.
A coisa não passou, em oito anos, de 74% nos alimentos, de 68% nos eletrodomésticos ou de 48% no vestuário.
Os desvios de rota ocorreram justamente na raia minada de preços e tarifas administrados pelo governo regulador. Para o mesmo IPCA de 118%, a pancada foi de 255% no transporte coletivo, de 227% na energia elétrica, de 381% na telefonia fixa e de 472% no gás de fogão (presente em 94% dos lares brasileiros).
Preços e tarifas que esnobam a lei natural da oferta e da procura. Que nada têm a ver com os retromotores da competição e da modernização. E que estão fora do alcance dos purgantes recessivos e dos xaropes antiinflacionários aviados pelos juros básicos da Selic ou pelas taxas livres do garrote bancário.
O que não tem faltado é arrazoado técnico para a pesada remarcação de preços e tarifas controlados pelos três níveis de governo. A explicação favorita do momento é a do chamado ''pass through'' dos custos cambiais para os preços finais. Repasse, diga-se, quase automático pela caneta da autoridade. O mesmo repasse que preços em liberdade têm rejeitado na raça e no grito.
Os médicos legistas da carestia preferem lembrar que os serviços públicos estavam dura e longamente arrochados ao tempo da inflação indexada do cruzeiro. Real a bordo, tais preços e tarifas passaram por uma recomposição geral, com descarte progressivo das antigas defasagens.
Essa atualização dos valores reais, na contramão do processo de estabilização, colocou os pés em duas canoas: 1) na adoção tardia de princípios de racionalidade econômica; 2) na criação de atrativos para a privatização dos monopólios do ramo. Certo?
Secos & Molhados
- Até quando? - O problema do ''realismo tarifário'' é que preços e as tarifas realinhados ou não mais defasados passaram a contar com a garantia da reindexação. Pelo IGP/FGV, sempre acima do IPCA/IBGE. O primeiro atribui peso 60 à variação dos preços no atacado ou na produção. O segundo contenta-se, exclusivamente, com a variação dos preços no consumo ou no varejo.
- Choque maior - Ocorre que os impactos inflacionários do câmbio volátil batem fundo na produção ou no atacado, com ou sem repasse para o consumo ou o varejo. Caso dos derivados do petróleo ou dos derivados do trigo. Mercados historicamente dolarizados. São primários importados.
- Esoterismo - No petróleo, a dependência externa está abaixo de 20%. No trigo, ainda acima de 70%. Não daria para desdolarizar o petróleo nacional? E que tal estimular a tropicalização do trigo, tal como fizemos com a tropicalização da soja? Ah! Os derivados de soja estão dolarizados (e inflacionados) porque exportamos soja e seus derivados...
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