JOELMIR BETING
''O saudosismo manifesto de candidatos e assessores em relação à inflação é um disparate. É a saudade de uma doença.''
Antonio Carlos Porto Gonçalves, diretor do Ibre/FGV
Blindagem suficiente
As eleições presidenciais acabam de perder peso emocional em nossa famigerada crise cambial. O novo acordo com o FMI saiu bem maior que a encomenda e nem sequer esperou por uma reticente anuência dos presidenciáveis de prontidão.
Claro, os candidatos de oposição não abrem os flancos de uma lógica política universal: a de fazer do piorômetro coletivo antes das urnas seu principal cabo eleitoral. O negócio, pois, é sustentar que as uvas do acordo ainda estão verdes. Até porque, nos termos do próprio acordo assinado pelo governo que sai, dá para pular fora dele no governo que entra.
Resta saber se essa bravata eleitoreira do tipo não vi, não ouvi e não gostei (alguns poderiam acrescentar o ''não entendi'') vai somar ou vai subtrair na percepção ainda confusa do vasto eleitorado.
O certo é que o acordo de suplementação costurado em tempo recorde serve bem mais ao próximo governo que ao mandato terminal de FHC. As contas externas de 2002 já estão literalmente fechadas. E as contas externas de 2003, decolagem do governo novo eleito pelo povo, só estarão fechadas se a dinheirama do FMI, da ordem de R$ 24 bilhões, chover certo na hora certa e na horta certa.
A coisa pode ser assim vislumbrada no cipoal de números que amarra assuntos do ramo. No ano que vem, para um passivo externo líquido estimado em R$ 264 bilhões (em junho último), nossas remessas devem somar US$ 43 bilhões, qualquer que seja o presidente destilado pelas urnas de outubro.
Este é o fator condicionante. O fator condicionado é o das prováveis entradas. Se com folgas ou com faltas. Pelas estimativas do governo e do próprio mercado, os ingressos em 2003 podem totalizar US$ 48 bilhões. Soma de US$ 24 bilhões do FMI com US$ 18 bilhões das múltis e US$ 6 bilhões da balança comercial no azul. Essa megaconta não considera os fluxos de novos créditos externos para o setor público (Bird/BID) e o setor privado (banca internacional).
Resumo da ópera: o novo governo não vai precisar beijar a mão enluvada do FMI e muito menos a mão oleosa do governo Bush. Basta-lhe cumprir metas e normas de austeridade fiscal. Compromisso que deve ser assimilado, de uma vez por todas, não como uma conveniência da especulação financeira, mas como uma exigência da cidadania brasileira.
É o que deve ocorrer na melindrosa travessia de 2003. Qualquer que seja a procuração das urnas de outubro, o futuro governo vai ter de trafegar pela bitola constitucional do Orçamento-Geral da União (montado pelo governo que sai e votado pelo Congresso que muda). Bitola riscada pelos trilhos da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). O resto é bravata de palanque.
Secos & Molhados
- Política - O acordo remontado foi necessariamente técnico. Mas a urgência foi evidentemente política. E a extensão da cobertura anunciada, também. Sem contar a dispensa de uma contrapartida de aperto fiscal suplementar para 2003. Afinal, se o ataque cambial foi mais político do que técnico, o contra-ataque teria de ser na mesma moeda.
- Distensão - A reversão das expectativas será tanto mais rápida se na próxima reunião do Copom o Banco Central rebaixar a Selic em pelo menos 0,25%. A distensão cambial de fora dentro autoriza e recomenda a redução dos juros e a reabertura dos créditos aqui por dentro. Afinal, a crise é cambial e não bancária.
- Meia-volta - Reversão de expectativas em tempo de sinistrose fabricada significa a retomada gradual de negócios, contratos, projetos, mercados, empregos, salários. Além de rebaixar os custos (e os riscos) da rolagem das dívidas públicas. O tal de reengate do círculo virtuoso interrompido em abril de 2001.
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