''Quando todo mundo compra, eu vendo. Quando todo mundo vende, eu compro.'' Amador Aguiar, fundador do Bradesco

Líquidos e sólidos



Diferentemente da Argentina, do Japão ou da Turquia, o Brasil de alto risco lá fora desfila sinais vitais de boa qualidade no sistema financeiro aqui dentro. A nossa é uma crise cambial e não uma crise bancária. Ou seja: no epicentro de negócios voláteis ou gasosos, nossos bancos estão líquidos e sólidos. Como nunca.

Líquidos? Sim, sobra dinheiro ocioso nos bancos brasileiros. A liquidez potencial do sistema enfurnado acaba de ser estimada por consultores financeiros em R$ 52 bilhões, nesta largada de agosto.

Com dupla explicação. Pelo lado da demanda, a economia real, emocionalmente chantageada pela recarga dos ''chacais da moeda'', prefere transitar com o freio de mão puxado, solicitando pouco crédito bancário para produção, giro e consumo. Pelo lado da oferta, os bancos fecham-se feito caramujo na praia, vacilantes entre o risco mercado e o risco Tesouro.

Ou como se diz no folclore do ramo: os bancos emprestam o guarda-chuva quando faz sol e retomam o dito-cujo emprestado quando começa a chover.

Há quem diga que essa folga tática de caixa, não alcançada pelos compulsórios do Banco Central nem pelos movimentos do ''open market'', estaria reforçando posições defensivas em câmbio.

Pode ser verossímil, mas não necessariamente verdadeiro. Nossos bancos estão com ''hedge'' cambial saindo pelo heliporto. Blindagem montada desde as corcovas do dólar no ano passado.

O que eles gostariam mesmo de fazer é tirar o corpo fora com dólar acima de R$ 3,00 - quando os próprios agentes financeiros, consultados semanalmente pelo Banco Central, reprojetaram na sexta-feira passada (pós-pico de R$ 3,61, na quarta) dólar a R$ 2,65 lá na ponta de dezembro. Na semana anterior, essa previsão estava em R$ 2,60.

Relembro aqui que os bancos têm massa crítica em câmbio para elaborar (e divulgar) previsões auto-realizáveis. Eles têm como sair à frente na baixa, assim como saem à frente na alta. Essa projeção de R$ 2,65 para o Natal já incorpora o efeito eleição e o tal de ''passivo externo líquido'', da ordem de US$ 264 bilhões.

O curto histórico do câmbio flutuante entre nós revela que a manada na poeira dos bancos precisa de sete meses para desvalorizar o real em 50%. E bastam-lhe sete semanas para voltar ao ponto de partida. Quer dizer: para quem especula sem cacife nem tutano, o pânico verdadeiro está na baixa e não na alta.

Foi o que se viu no primeiro trimestre de 1999, tempo de desmanche trapalhão da banda cambial. Com repeteco no último trimestre de 2001, sob as trombetas do Juízo Final. Na primeira bolha, a coisa foi de R$ 1,20 a R$ 2,23. Em maio, já estava em R$ 1,60, com deflação no IPCA.

Ano passado, a segunda bolha não deixou por menos. Inflou-se até R$ 2,83, em outubro. Não por falta de aviso ou de previsão dos próprios bancos, fechou o ano em R$ 2,31.

Secos & Molhados

- Sólidos - A solidez sistêmica do setor bancário brasileiro deu a volta por cima da transição do cruzeiro estupidamente bichado para o real quase estabilizado. Os bancos foram montados para faturar a pajelança do primeiro e não a ''rationale'' do segundo.

- Seguros - Com a blindagem até hoje não compreendida do Proer, os correntistas e poupadores brasileiros não perderam a grana nem o sono. Nem mesmo a clientela dos bancos sacrificados pela reestruturação purgativa.

- Tranquilos - Certo, juros salgados, tarifas reinventadas, ''spreads'' folgados, riscos cobertos, garantias leoninas, ganhos certos de tesouraria com títulos públicos, automação bancária avançada de base e de ponta, rentabilidade patrimonial líquida pela média anual de 16%, mercado de capitais ainda não alternativo, bancos estrangeiros adiando choques de competição tardia...

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