JOELMIR BETING
''Os vivos são sempre governados pelos mortos, escreveu Comte. Não. Os vivos são cada vez mais governados pelos mais vivos.''
Apparicio Torelly (1895-1971), o ''Barão de Itararé''
Quadratura do círculo
Quando Paul O'Neill ataca o Brasil, o dólar dispara (o homem manda). Quando Paul O'Neill elogia o Brasil, o dólar não recua (o homem não pesa). Quando o FMI desconversa sobre o Brasil, o dólar dispara (zerou a credibilidade). Quando o FMI aceita novo acordo, o dólar não cede (novos custos sociais e políticos).
Quando o saldo comercial declina, o dólar dispara. Quando o saldo comercial aumenta, o dólar não desce. Quando o IPCA vai para o aclive, à direita da vírgula, o dólar dispara (quando os preços sobem, é inflação). Quando o IPCA aderna para o declive, o dólar não baixa (quando os preços baixam, é promoção).
Quando os bancos soltam o crédito externo, o dólar dispara (por causa da ampliação e/ou recomposição do ''hedge''). Quando os bancos travam o crédito externo, o dólar não reverte (por força da amortização da dívida sem rolagem).
Quando as pesquisas eleitorais encorpam o efeito Lula ou o efeito Ciro, o dólar dispara. Quando as pesquisas marcam passo, o dólar não resfria - é preciso aguardar a próxima pesquisa e, já agora, o próximo debate.
Quando o ajuste fiscal ameaça o superávit primário, o dólar dispara (com medo da deterioração das contas públicas). Quando o ajuste fiscal eleva o superávit primário, o dólar não amaina (com medo do efeito recessivo equivalente).
Quando as bolsas sobem, o dólar dispara (alta em bolsa é meramente especulativa). Quando as bolsas caem, o dólar não acompanha (a baixa em bolsa é atribuída à ''quebra da confiança dos mercados nos fundamentos da economia'').
Quando a Argentina entra em novo ataque horripilético, o dólar dispara. Por contágio. Quando a Argentina volta a respirar, o dólar nem se lixa. Já estamos ''descolados'', pois não?
Quando os indicadores americanos apontam para a reaceleração da locomotiva global, o dólar dispara (a coisa não é séria, ''cuidado com o excesso de otimismo''). Quando os indicadores americanos baixam a crista, o dólar não larga o osso (recessão global pela proa agrava o risco Brasil).
Quando as agências e bancos classificadores de risco rebaixam as notas (rating) do Brasil, o dólar dispara (risco maior, juro maior, dívida maior, déficit maior, risco maior...). Quando nosso risco, ajuizado por eles, estaciona no alto, o dólar não baixa a guarda (ainda que recuando, o risco país do Brasil vai continuar três vezes maior que o risco país da Colômbia em pé de guerra).
Uf! Dá pra tomar uma AmBev antes? Até quando vamos suportar o atual fogo cruzado do parasitismo financeiro interno e do catastrofismo manipulador externo? É o que se perguntaram os membros do Fórum de Líderes Empresariais, da Gazeta Mercantil.
Disseram eles que a análise econômica se tornou refém de uma fantasia organizada. Feita hoje de terrorismo financeiro, de cartomancia contábil e de astrologia eleitoral.
Secos & Molhados
- Recompra - De Roger Agnelli, presidente da Vale do Rio Doce: ''Não dá para colocar o Brasil à venda. Temos de recomprar o Brasil. A menos que queiramos rifar o Brasil que ainda hoje empreende, investe, inova, produz, emprega, trabalha e consome.''
- Sem grilo - De Luiz Fernando Furlan, presidente da Sadia: ''O próprio FMI sustenta que o risco Brasil é um disparate. É uma crise fabricada. Ainda assim, não é um ano desastroso. Para alguns setores, a situação é até melhor que a do ano passado.''
- Tem eixo - De Roberto Rodrigues, presidente da Associação Brasileira de Agrobusiness (Abag): ''Há um Brasil real bem forte e bem mais calmo que o Brasil do real. Um Brasil interiorano maior e melhor que o Brasil metropolitano. Um Brasil que não está na mídia, mas que avança, sobretudo, em qualidade.''
- Tem prumo - Cerca de 10 mil empresas consultadas em junho pelo Balanço Anual, da Gazeta Mercantil, estão com o futuro e não abrem. Em bloco, elas desenvolvem programas de investimentos, até 2007, de US$ 547 bilhões.
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