''Ao contrário das crises anteriores, o FMI e os EUA passam a fazer parte do problema e não da solução.''
Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia de 2001

Vamos ao fundo



Sim, vamos ao fundo da ajuda do Fundo. O governo que sai não mais precisa da blindagem externa, com aval do salão oval da Casa Branca de pasmo. O governo que entra, sim, é que vai precisar de uma ração suplementar da ordem de R$ 20 bilhões. Ou até o dobro disso, se o presidente eleito permanecer no palanque até o dia da posse, fazendo beicinho para a ''intromissão'' do FMI.

Ao colocar o dedo na ferida - ''FMI e EUA fazem parte do problema'' - o professor Joseph Stiglitz lembra que, no ''crash'' em cascata do México (1995), da Ásia (1997), da Rússia (1998) e do Brasil (1999), a economia americana navegava na crista da onda de meia década de exuberância pirotécnica. Havia mais capitais do que projetos em Wall Street, epicentro da liquidez universal.

A crise asiática, nem sequer vislumbrada pelas agências classificadoras de riscos e muito menos pelo onisciente ''board'' do FMI, acabou devidamente amortecida e revertida pela prosperidade americana, locomotiva do mundo unipolar dos cifrões. Tanto assim que o Brasil ajustou o câmbio meio no tapa, sem perder o crédito externo dos bancos nem o capital externo das múltis.

Eis que, em março de 2000, acontece o estouro da bolha made in Usa. E não por falta de aviso prévio. Torre virtual da Nova Economia, a Nasdaq desmoronou 66% em seis meses. No ano anterior, ela havia desfilado uma valorização gregoriana, ponta a ponta, de 87%.

O chamado ''efeito riqueza'' das bolsas ensandecidas, do tipo ''pecuniam parit pecunia'', já acumula perdas em bloco de US$ 10,7 trilhões nos dois lados do Atlântico Norte. Sim, de 11 de março de 2000 a 30 de junho de 2002. Fonte: Centre of Economic Policy Research, de Londres.

Quer dizer: o risco não está aqui; está lá. Ninguém perdeu dinheiro aqui. Há quem tenha perdido tudo por lá. A destruição do valor (irracional) de mercado do estoque global de ações equivaleria a 32% do PIB mundial, este ano. Ou todo o PIB dos Estados Unidos.

Com direito a um governo despreparado no leme do Titanic.

O juízo de valor é do economista brasileiro José Alexandre Scheinkman. Carioca das Laranjeiras, o professor Scheinkman dirigiu a Escola de Economia da Universidade de Chicago e agora veste a camisa de Princeton. Ele me disse, há dez dias, na ''Globo News'', que o verdadeiro risco país dos Estados Unidos chama-se ''incompetência comprovada'' do governo Bush & O'Neill.

Despreparado e azarado, Bush tomou posse sem saber contar os próprios votos, pegou pela proa o pouso forçado da águia esfalfada, tomou pela popa a catástrofe de 11 de setembro e agora tenta apagar o fogaréu das fraudes corporativas (incluídas as próprias).

Ontem, em Brasília, o secretário Paul O'Neill cuidou de desculpar-se das lições de moral que andou pespegando no Brasil. Faltou alguém soprar-lhe nos ouvidos a secular advertência de Mark Twain: ''Palavras são como granadas. Usadas com imperícia, explodem na boca.''

Secos & Molhados


- Ele tem razão? - Paul O'Neill tem a força. Para The Wall Street Journal, em nota editorial, ele tem também a razão. A razão de fazer reparos morais ao ''mau uso'' que governos e/ou governantes fazem da ''ajuda externa''. Carapuça recortada dia 28 de julho para as cabeças escalpeladas de Brasil, Argentina e Uruguai.

- Vamos quebrar? - Para The New York Times (3 de agosto), o risco Brasil é realmente sério. O jornal sustenta que não se afasta a hipótese de uma ''onda de calotes corporativos'' das empresas brasileiras agora sem crédito (''credit crunch''). Ou sem rolagem pelos bancos das dívidas já contratadas.

- Como é que é? - O britânico The Financial Times prefere a coluna do meio e generaliza o risco do calote-dominó também para empresas americanas e européias. Com a síntese kafkiana: ''Pela primeira vez, temos uma crise de crédito, mas não uma crise bancária.'' Bem, as ações do setor caíram 34% no trimestre maio/julho na média do eixo Nova York/Londres/Frankfurt.

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