JOELMIR BETING
JOELMIR BETING
''O Brasil, que já apertou tanto as coisas, não sabe mais o que apertar para se ajustar a um mundo que enlouqueceu.''
Fernando Henrique Cardoso, presidente da República
Morde e assopra
O obtuso Paul O'Neill, secretário do Tesouro dos Estados Unidos, diz ao The Washington Post: ''Não me acostumo à idéia de que tenha poder para derrubar mercados. Sempre me espanta que alguém se preocupe com o que eu faço ou com o que eu digo.''
Comentário do jornal: ''Preocupante é um secretário do Tesouro não ter noção das responsabilidades do próprio cargo que exerce. Se não tomar cuidado, ele perderá o cargo. Nesse caso, terminará seu espanto.''
O Brasil que o diga. O secretário trapalhão, que se disse no domingo, na rede Fox de televisão, ''único porta-voz autorizado do presidente Bush sobre questões econômicas e financeiras'', atirou com Winchester 44 de cano triplo, raridade texana: ''Não se deve ajudar países endividados como Brasil, Uruguai e Argentina, os quais, não raro, desviam a ajuda externa para contas secretas na Suíça.''
Para variar, a Casa Branca de gafe cuidou de mitigar o constrangimento diplomático (sem repreender publicamente o burocrata falastrão). Ela se deu o caso por encerrado. O segundo em três meses. Em maio, O'Neill já dissera que os riscos e os juros no Brasil estão no alto e em alta por uma simples e boa razão: a corrupção. Em junho, agregou uma segunda explicação: a eleição.
Caso encerrado? Para o Brasil, ainda não. Quinta-feira, servindo-se de gabinete adequado, o do Itamaraty, o presidente Fernando Henrique Cardoso não perdeu a deixa: ''Ficamos inquietos ao ver que há dois pesos e duas medidas nas relações internacionais. A transparência que tanto nos pedem, e que hoje praticamos, não parece ser assim tão transparente acima da linha do Equador.''
Com efeito, a sociedade americana está chocada pela descoberta tardia de fraudes contábeis nos demonstrativos de poderosas empresas que se financiam barato com a poupança capilar de milhões de acionistas anônimos (e agora desiludidos).
Fraudes contábeis igualmente detectadas no currículo empresarial do próprio presidente George Bush, o filho.
Certo, os americanos não têm caixa 2 em contas secretas na Suíça. Por uma simples e boa razão, diria O'Neill: eles preferem operar cofres secretos, a fisco zero, no Caribe.
Eis que, instado pelo ''board'' do FMI e soprado pelo secretário de Estado, Paul O'Neill assopra a mordida na nuca do Brasil: ''Tenho um grande respeito pelas pessoas do Brasil e pelo lugar do país na economia mundial.''
No doce embalo da reparação não confessada, o secretário voltou a fita a um destempero por ele emitido em março, segundo o qual Brasil e Argentina (esta, então, já em colapso) são farinha do mesmo saco. Refez-se O'Neill, anteontem: ''Não acredito que haja uma bala de prata que você dispara automaticamente para cada circunstância, como se o mundo todo fosse um único lugar monolítico.'' Ah! Bom.
Secos & Molhados
Reprimenda - Em carta aberta ao presidente Bush, os presidentes das câmaras americanas de comércio de São Paulo e do Rio, respectivamente Robert Mangels e Gabriella Icaza, deploram as ''infelizes declarações'' do secretário O'Neill. As entidades agrupam MAIS DE 5.500 empresas americanas estabelecidas no Brasil.
Desinformado - No texto, o grifo dos signatários na questão das ''contas secretas na Suíça'': ''Isso reflete um desconhecimento surpreendente das políticas públicas brasileiras. É desapontador, para dizer o mínimo, que o secretário O'Neill se mostre assim desinformado, com tantas fontes de informação do próprio governo dos Estados Unidos a seu dispor.''
Legislação - A carta lembra que o acesso ao dólar no mercado brasileiro não é automático e que remessas acima de US$ 3 mil têm de identificar o autor, o destino e o motivo delas. E mais: o Brasil foi o terceiro maior receptor do mundo de capitais das múltis nos últimos oito anos. Só perdeu para Estados Unidos e China.





