JOELMIR BETING
''Todo medo de ter medo aumenta o medo. E o medo ampliado justifica todo o medo.'' Mao Tse-tung (1893-1976), ditador chinês
Antes das férias
E o baile continua animado no salão de festas do Titanic capitalista, já abalroado. A Casa Branca de susto sustenta que nada há de novo na frente ocidental da crise financeira quase global. Ou quase sistêmica. E a tecnoburocracia do FMI avisa, entre dois bocejos de tédio, que vai mesmo entrar em férias coletivas de verão a partir do dia 12.
Releitura das linhas acima passa o grifo em dois pontos. O primeiro: o governo Bush não está mesmo a fim de endossar o ''moral hazard'' de uma retemperada transfusão de dólares ociosos do FMI para as veias de países hemorrágicos - Brasil no meio. Lá estavam, ontem, em fila indiana, de chapéu furado na mão, Brasil, Uruguai, Argentina, Equador, Peru, Venezuela... Sim, surrados habitantes do quintal dos Estados Unidos e prováveis anexados da futura Área de Livre Comércio das Américas (Alca).
Segundo ponto: até pelas inapetências do poderoso tutor a tira-colo, o ''board'' do FMI não teria como fazer hora extra na cabeceira do Brasil. Nem sequer haveria tempo, pelos rituais da anacrônica instituição, para preencher um contracheque tampão de US$ 15 bilhões até sexta-feira da semana que vem.
Nem mais se trata de averiguar se nossos ''fundamentais'' financeiros, fiscais, econômicos e políticos (ou eleitorais) são dignos de fé. A diplomacia republicana dos cifrões made in Usa informa que não mais se deve dispensar a qualquer país sem bote nem bóia um tratamento emergencial diferenciado e favorecido. Em apenas cinco anos, na soma das crises do México, da Ásia, da Rússia e do Brasil, o FMI já teve de abrir as burras em US$ 257 bilhões.
Talvez pulse na cabeça do primeiro escalão do Fundo a minhoca de que o Brasil seria já um caso perdido do tipo tranca de aço em porta arrombada. Clonagem, por osmose, do colapso da Argentina.
Com a diferença: a) os argentinos precisaram de duas décadas para desorganizar e empobrecer um país organizado e rico; b) os brasileiros já gastaram pelo menos dois séculos sem conseguir organizar e enriquecer um país desorganizado e potencialmente bem mais rico.
Carpideiras de lado, há muita gente entre nós espalhando por aí que uma nova blindagem de U$ 10 bilhões a US$ 20 bilhões não mais seria suficiente para ''reverter o nervosismo dos mercados''. Assim como tem sido periférica a intervenção do Banco Central pelas bordas desses mesmos mercados. Até porque, tanto nos dólares como nos juros, intervenção com aviso prévio... Já imaginaram uma tropa de choque passando aviso aos baderneiros de que estará na praça da matriz com balas de festim todo santo dia ao partir do meio-dia?
Até prova em contrário, não há solução técnica para um problema político. Ainda que encharcado de álgebra, o atual arrazoado para o dólar acima de R$ 2,60 (projeção do próprio mercado para dezembro) tem muita explicação e pouca justificativa.
Secos & Molhados
- Risco maior - Pois o risco Brasil acaba de ser ultrapassado pelo risco dólar - mico do tamanho de um gorila, para quem ainda não tirou o corpo fora do ''hedge'' excessivo ou ignorante. Dizem alguns doutos esnobados que o risco Brasil, incluído o efeito Lula ou o efeito Ciro, não vale dólar acima de R$ 2,60.
- Como é que é? - Quando o dólar despenca (como ontem), os analistas da catástrofe anunciada lavam as mãos: ou é intervenção não sustentável do Banco Central ou é realização especulativa de lucros. Quando o dólar dispara, daí ''é falta de confiança dos mercados nos fundamentos da economia e nos movimentos da política''.
- (In)Segurança - Única certeza: no câmbio, as cotações são exatamente como os aviões: 100% seguras. As estatísticas comprovam que 100% das cotações e dos aviões que sobem, descem.
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