''Política não é sala de aula. Política é campo de batalha.'' Mangabeira Unger, economista

Dólar a R$ 2,60



Quando? Em 30 de dezembro, segunda-feira, último dia do ano financeiro de 2002. Palavra dos 100 maiores atores e indutores do mercado cambial flutuante. Ou dos 100 maiores bancos e consultorias auscultados sexta-feira pelo Banco Central do Brasil. Ah! Eles projetam o dólar também para dezembro do ano que vem: R$ 2,70.

Pois é. Em outubro do ano passado, dólar então cravando R$ 2,83, essa mesma consulta semanal apontou para o fechamento do ano financeiro 2001, em 29 de dezembro, dólar a R$ 2,34. Errou. Deu R$ 2,31.

Sempre levei a sério, juntamente com o Banco Central, essas projeções do tal de ''mercado''. Primeiro, porque tais cenaristas são literalmente do ramo. Segundo, porque os bancos têm massa crítica para estabelecer previsões auto-realizáveis. Ou seja: o megabloco tem poder de fogo para fazer ou refazer posições sobre os próprios prognósticos. Incluído todo um arsenal de ''hedge'' para desova no ''market timing'' adequado.

Ano passado, o ''market timing'' deu-se em novembro e dezembro. Foi quando investidores e operadores passaram a desconfiar que não haveria nenhum fim do mundo plugado no 11 de setembro. Nem mais haveria contágio direto da hepatite C da Argentina. Houve até mesmo a percepção tardia de que o déficit externo em conta corrente (que só é problema quando não há problemas) fecharia o ano abaixo de 4% do PIB.

Coincidentemente, o estouro do novo ''overshooting'' do câmbio flutuante (que, segundo Delfim, não perde mesmo a mania de flutuar) leva jeito de ocorrer igualmente em novembro e dezembro. Desta feita, por obra e graça do esgotamento com data marcada do complicador eleitoral: 27 de outubro, urnas do segundo turno.

Qualquer que seja o presidente eleito? Sim. A tal de aversão ao risco Lula ou ao risco Ciro, com menosprezo do fator Serra, revela-se mais que exagerada (ou manipulada). Não vale dólar acima de R$ 2,60. Ou risco Brasil acima da média histórica de 700 pontos. Até porque nossos fundamentos fiscais e financeiros não são piores que os de quatro centenas de emergentes com classificação de risco abaixo de 1.000 pontos.

Analistas políticos surrados em 1994 e 1998 chegam mesmo a admitir uma ''reversão cambial'' a partir de setembro. Ou a partir da décima noite da estréia, em 20 de agosto, com aviso prévio, do horário eleitoral gratuito, único no mundo. São 44 dias e 44 noites de Big Brother 3 do TSE. Houve reversão das prévias no Big Brother 1 e no Big Brother 2. O favorito de julho não chegou sequer ao segundo turno.

Lembram-se? Não! Agora é diferente! Afinal, há muita gente influente por aí que ainda pensa que pesquisa eleitoral é prognóstico. Não. Ela é diagnóstico.

Secos & Molhados

- Empatia - Já que a especulação cambial tem a urna na mira, é ficar de olho na ignição do horário eleitoral gratuito. Para 60% dos 115 milhões de eleitores cadastrados, de baixo para cima da sociedade brasileira, televisão é empatia. Positiva ou negativa. A empatia pessoal bate ponto até mesmo nos debates televisivos dos candidatos.
- Nada a ver - Empatia pessoal não é discurso de campanha, não é programa de governo, não é partido de prontidão. A empatia positiva acaba de gratificar um caubói caipira com meio milhão de reais. O discurso do vencedor (num pleito online que totalizou numa única noite 9,6 milhões de votantes) era ganhar o prêmio da Globo e com ele ''construir um hotel para cavalos''.
- Maior risco - O acordo aditivado com o FMI não tem munição para acalmar um mercado que não está mesmo a fim de ser acalmado. O pânico é a alma desse negócio. O que faz do dólar acima de R$ 2,60 o risco mais explosivo do próprio mercado.

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