''Quando o Brasil ligar, pedindo nova ajuda, deixem tocar. Ou digam-lhe que os diretores do Fundo estão ocupados.''
Rudiger Dornbusch (1942-2002), economista

Caso de política



Com o câmbio automático enroscado em sexta marcha, cotação gaseificada do real digna de colapso da economia, calote da dívida ou golpe de Estado, o Brasil recorre ao FMI em busca de sustentação de emergência no vácuo da especulação cambial sem tamanho e sem vergonha. Tenta-se uma solução técnica para um problema político.

O ataque desfechado contra o real não tem cabimento na lógica econômica, sequer na lógica financeira. Deve ser obra e desgraça da tal de ''ganância infecciosa'', apoiada por uma aversão ao risco absolutamente desconexa. Ou disléxica. A menos que fazer eleição presidencial em democracia soberana seja um pecado capital ao sul do equador.

De nada adianta documentar a razoável qualidade dos nossos fundamentos econômicos e dos nossos procedimentos políticos. Até por comparação com o que anda ocorrendo em quase uma vintena de outros emergentes em contrapé político, em transe econômico e em trauma social, o risco Brasil não pode ser quase três vezes maior que o da Colômbia.

Talvez haja uma explicação transversal nessa picaretagem financeira que hoje abala o cotidiano de 175 milhões de brasileiros (ou de 115 milhões de eleitores). Somos um país importante. Temos massa crítica para pesar na economia global. E, ao que parece, temos ingenuidade de sobra para buscar respostas técnicas a ataques políticos.

A questão é política, sim. Uma confraria de parasitas financeiros, com os pés lá fora e as mãos aqui dentro, deu de praticar atos explícitos de subversão organizada. Com a generosa cumplicidade de Paul O'Neill, secretário do Tesouro dos Estados Unidos. Para quem o dólar está nas nuvens porque somos todos corruptos. Ou para quem o risco Brasil flutua na face oculta da Lua porque desviamos a ''ajuda'' do FMI para contas secretas na Suíça.

O duro é ter de aguentar o arrazoado técnico dos analistas de mercado para a fuzarca cambial sem limite. Gasta-se um Solimões de tinta para pintar cenários sinistros nas telas de um negócio fajuto encharcado de álgebra, a serviço da quiromancia cambial e da astrologia eleitoral - o chamado ''rating'' de crédito (ou de credibilidade) de empresas, de governos ou de nações, ajuizado por um tribunal sideral formado por agências e bancos classificadores de riscos alheios - sentados nos próprios.

Com o lembrete: cenários sinistros têm o resseguro da auto-realização. Seus autores não perdem o cliente nem a pose. Ou como já nos ensinava James Tobin, na verdadeira e única crise global digna do nome, a da ''debt crisis'' dos anos 80 (com 34 países em moratória, Brasil no meio): ''A expectativa de crise provoca a crise, que sanciona a expectativa.''

Secos & Molhados

- Reestruturar? - Historicamente avesso à reestruturação de dívidas internas e externas, o FMI suspira fundo e deixa escapar pela voz da vice-diretora-geral Anne Krueger: ''Com a reestruturação das dívidas soberanas, os países emergentes, de uma forma geral, nada têm a perder. Bem ao contrário, têm tudo a ganhar.'' Uau!

- Nem pensar - Anne Krueger disse isso, sexta-feira, em São Paulo, a um auditório de 650 economistas, consultores e analistas. Só faltou implorar ao mercado: ''Sentem que esse leão é manso!'' Como é sabido, para 66% dos credores, reestruturação é sinônimo de moratória. E, para 34%, moratória é sinônimo de calote.

- Das manadas - Pelo sim, pelo não, o dólar perdeu o juízo sob o coice do efeito manada. Ocorre que o efeito manada para o alto é gradualista. Para baixo, é espaventoso. O maior risco da aversão ao risco é trocar capital de giro por dólar a R$ 3,20 em agosto e ter de revendê-lo a R$ 2,60 em dezembro. Hoje, nesta coluna.

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