''Talvez o risco Brasil esteja exagerado justamente pelo fato de estarmos sob severa disciplina do FMI.''
Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central

As próprias pernas



Eis a questão de fundo para o Fundo: o Brasil não sabe ou não pode andar com as próprias pernas. Para o ''board'' do FMI, refestelado em Washington, onde a onça bebe água Evian, não temos cultura de austeridade monetária e muito menos de neutralidade orçamentária. Nem sequer de moralidade pública.

Em assim sendo, o Brasil não passa de um gigante molenga que não sabe se comportar sem um rígido cabresto externo. De tal sorte que não existe país algum do mundo em que o FMI seja um duende tão (im)popular. Com direito a marchinhas de carnaval.

Para o economista e consultor Gustavo Franco, presidente do Banco Central ao tempo da controvertida banda cambial (março de 1995 a janeiro de 1999), a blindagem financeira do FMI talvez não esteja mitigando o risco Brasil e, sim, paradoxalmente, agravando a abulomania do próprio.

Gustavo Franco pondera na Veja desta semana: a) não tem cabimento imaginar que o FMI tenha entre nós alguma missão permanente de caráter salvacionista; b) não faz sentido buscar uma engenharia política esotérica do tipo ''acordo de transição'', tal como um resseguro monetário e cambial para a recepção de algum novo governo populista e perdulário. Yes, para o tal de ''mercado'', ainda não sabemos votar (mas sabemos contar votos...).

Para Franco, deixar expirar em dezembro o atual acordo com o FMI não deve ser visto como sinal verde para a retomada do oba-oba desenvolvimenteiro, do tipo fazer planos e obras sem fazer e sem pagar as contas. Textualmente: ''Bem ao contrário, a não renovação do acordo na troca de governo pode ser a oportunidade de demonstrar que este país não precisa de tutela internacional para forçá-lo a se governar de modo civilizado.''

Fazer da reticente costura da prorrogação do acordo, dito de transição, uma questão de salvação nacional, qualquer que seja a vontade soberana do povo brasileiro nas urnas de outubro, acaba levando o capital externo a fazer essa leitura da pá virada: sim, não temos vergonha na cara em matéria de administração pública e nenhuma luz própria para a formulação de políticas econômicas e a realização de programas sociais.

Ou seja: com muita clareza e justiça, é nosso o terceiro maior risco país do planeta sem juízo. De tal sorte, que também é nossa a terceira maior taxa básica de juros do mundo (18%). Quer dizer: o próprio Banco Central do Brasil não confia no Brasil. Ele teme que qualquer alívio da Selic, para além da direita da vírgula, detonaria virulenta recarga da temível inflação de demanda.

Já que a teoria econômica dos livros não faz distinção de raça nem de classe, qual tem sido a inflação do Chile ou do México, sem recessão, com as respectivas taxas básicas abaixo de 4% ao ano? E o que dizer da inflação americana abaixo de 2% para um PIB que volta a trotar acima de 3%? Com taxa básica de 1,75%.

Secos & Molhados

- Corpo fora - Os presidenciáveis não estão mesmo a fim de assumir ''compromisso antecipado'' com o FMI. Compromisso exigido, deselegantemente, quinta-feira, em São Paulo, pela vice-diretora geral do Fundo, Anne Krueger.

- Quem palpita - O secretário do Tesouro americano, Paul O'Neill, voltou a meter sua colher de ouro na sopa de quiabo dos brasileiros: a) não recomenda nova ajuda do FMI ao Brasil; b) disse que ninguém garante que essa ajuda não possa acabar amoitada em bancos da Suíça; 3) afinal, segundo ele, não somos o terceiro maior risco do mundo por acaso...

- Lembretes - Paul O'Neiil desembarca em Brasília agora em agosto. Quando a Argentina adernou para o abismo, em 2001, o escudeiro de Bush bateu o martelo: Argentina e Brasil são farinha do mesmo saco furado. Em março deste ano, não deixou por menos. Ele simplesmente jurou que dólar e juros nas alturas têm aqui no Brasil uma só explicação: a corrupção.

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