''Um capitalismo em que a especulação financeira predomina é uma estranha arquitetura em que tudo se apóia lá no teto.''

Luis Fernando Verissimo, jornalista e escritor

De pernas para o ar



Sim, o capitalismo opulento está mesmo de pernas para o ar, escreve Luis Fernando Verissimo. Os tais de ''fundamentos'' não estão nas bases, mas nas nuvens. Verissimo ousa comparar com a tragédia das torres gêmeas de Wall Street: elas ruíram sem que suas bases sólidas tivessem sido atingidas no atentado. Com o lembrete: ''Na verdade, quando as bases de uma delas foi atingida por um atentado anterior, a estrutura não se abalou.''

Eis a questão de fundo: o mercado financeiro chipado, que agora dá a volta ao mundo em um segundo, deixou de ser uma atividade-meio da economia moderna. Transformou-se em atividade-fim. Um parasitismo econômico e social da variedade etérea: pecuniam parit pecunia.

Alan Greenspan, o ''senhor dos mercados'', coloca no mesmo saco ou no mesmo cofre a especulação financeira e a picaretagem corporativa - irmãs siamesas na atualidade americana. E pespega-lhes o crachá de ''ganância infecciosa''.

As recentes fraudes contábeis fazem a ponta do iceberg de uma ética empresarial de há muito despedaçada. Ou nem sequer instalada. Iceberg feito igualmente de práticas comerciais predatórias, de falcatruas fiscais refinadas, de agressões ambientais ostensivas e de relações viciadas com investidores, fornecedores, distribuidores, trabalhadores, consumidores...

Tanto assim que a nascente catequese da chamada ''governança corporativa'' se desloca do campo adubado da eficiência econômica e da transparência empresarial para o terreno minado da responsabilidade social da empresa. Movimento iniciado nos anos 80 nos dois lados do Atlântico Norte e agora fermentado também aqui no Brasil. ''Com pelo menos uma década de atraso'', suspira Maria Cecília Coutinho de Arruda, professora de Marketing e Ética da FGV-SP.

No Senado americano, dia 16, Alan Greenspan não lavou as mãos feito Pilatos. Jogou a toalha: ''Uma ganância infecciosa (e/ou contagiosa) parece ter tomado de assalto nossa comunidade de negócios. Não é que os seres humanos se tenham tornado mais gananciosos hoje do que no passado, mas sim que as avenidas de expressão da ganância tenham crescido de maneira despudorada.''

Pelo sim, pelo não, os cidadãos americanos antecipam-se a uma legislação corretiva ou punitiva e partem para a condenação das empresas agora flagradas em ilícitos contábeis. A fraudulenta WorldCom já teve seu valor de mercado, por ação, reduzido a pó: de US$ 64,10 para US$ 0,09. O fluxo de caixa despencou 47% no rodapé de uma dívida sem rolagem de US$ 33 bilhões. A concordata já exala falência.

Moral dos cifrões: o público fraudado não se defende; ele apenas se vinga.

Secos & Molhados

- Implacável - Corporações de peso e respectivas auditorias têm de preservar um ativo precioso, o mais precioso: a fé pública em seus demonstrativos contábeis e decisões corporativas. Quando essa fé se pilha lesada, o próprio mercado (e não o governo) cuida de decretar o fuzilamento da empresa. Com mico, medo e raiva.
- Intervenção - Discute-se agora se a legislação do capital aberto é suficiente e se a fiscalização é adequada. Ou em que medida o governo deveria intervir no mercado sem juízo. Pesquisa WSJ/NBC revela que 36% dos americanos temem que uma intervenção seja exagerada. Outros 64% receiam que ela não seja suficiente - sobre ser tranca em porta arrombada.
- Contra-ataque - Eis que o Congresso americano, em tempo recorde, elabora e aprova medidas duras contra fraudes contábeis e contra executivos pilhados no contrapé moral. A matéria deve ser sancionada ainda hoje pelo presidente Bush. A decisão é mais política do que técnica: é para mostrar serviço...

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