JOELMIR BETING
''A superioridade dos economistas sobre o resto dos mortais é que eles sabem tudo sobre o que ninguém mais entende.''
Nelson Rodrigues (1912-1980), jornalista e dramaturgo
Mude-se a régua
O mestre inglês John Maynard Keynes (1883-1946) está outra vez na moda. Nas áreas acadêmicas e nas arenas políticas, clama-se em coro por intervenções keynesianas corretivas e purgativas do Estado regulador nas fuzarcas da economia neoliberal de mercado.
O problema de hoje é que a sociedade, por conta dessas mesmas fuzarcas físicas e morais, por sobre a miséria de um terço da Humanidade, acaba de zerar a credibilidade nos burocratas lenientes e nos executivos gananciosos e começa a colocar na berlinda a capacitação profissional dos economistas. Ou pior: passa a questionar os fundamentos científicos das leis econômicas escritas por economistas.
A provocação de base é do próprio Keynes: ''Quando a realidade econômica muda, minha convicção acadêmica também muda.'' Ao que acrescenta o austríaco Peter Drucker: ''Os economistas, por dever de ofício, têm de ser dogmáticos. Tais como os monges católicos da Idade Média, eles não aceitam lições da realidade. Chegam a admitir que a Economia seja uma ciência social. Porém, alheia à dinâmica social.''
Não menos cáustico, o canadense John Kenneth Galbraith escreve sobre a falência das previsões econômicas nos anos 90: a) em nome da ciência, não mais se pode admitir duelos públicos de escolas econômicas paralelas ou conflitantes; b) a emulação de escolas oniscientes patrocina equívocos de interpretação das leis econômicas e de avaliação dos fatos econômicos; c) do que resultam erros dramáticos de diagnóstico dos problemas, de terapêutica das soluções e de prognóstico dos eventos.
Consta que, certo dia, nos anos 30, o professor Albert Einstein entregou o gabarito da prova final de Física à secretária encarregada das cópias. A meio expediente, a secretária observou que se tratava exatamente da mesma prova de três anos antes.
- Mestre, são as mesmas perguntas de três anos atrás?
- Sim, minha filha.
- Mas não há risco de alguém já dispor desse mesmo gabarito e viciar o exame?
- Não, minha filha. As perguntas são exatamente as mesmas. Mas as respostas, não mais.
Em maio de 1998, o provecto Alan Greenspan deixou escapar, polidamente, que as metodologias de cálculo da inflação e do PIB não mais estariam ajustadas à nova realidade da economia americana. Os ganhos ininterruptos de produtividade em década e meia poderiam não estar adequadamente capturados por essas metodologias intocáveis dos anos 70. Ainda hoje, para o presidente do Fed, a inflação oficial talvez seja maior que a inflação real. E o PIB oficial, menor que o PIB real.
Tradução: a economia americana é provavelmente mais robusta do que a econometria dogmática hoje registra.
Secos & Molhados
- Econometria - Econometria é o braço da Economia que trata de leis quantitativas para os fenômenos econômicos mensuráveis. Encharcada de matemática e estatística, ela atua em quatro fases: especificação de modelos, formulação de parâmetros, verificação de hipóteses e previsibilidade de políticas e eventos econômicos.
- Todos a bordo - Econometristas notáveis das três Américas estão reunidos, até sábado, na FGV-SP. Entre outros, Anne Krueger, vice-diretora- geral do FMI; e James Heckman, Prêmio Nobel de Economia. À luz da matemática, eles discutem causas e efeitos do atual ciclo de (des)equilíbrio econômico geral.
- Grande ausente - Plantada em meados do século 19, a econometria foi retemperada nos anos 40 por Paul Samuelson, Prêmio Nobel de Economia de 1970. Aos 87 anos, em plena ativa, o professor Samuelson é o grande ausente deste Latin-American Meeting of the Econometric Society.
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