''Os fundamentos da economia brasileira são de boa qualidade.As avaliações do risco país é que estão exageradas e injustas.''
Jacob Frenkel, presidente da Merryl Lynch (NY)

Erguer as pontes



Primeiramente, é bom esclarecer que esta visita da professora Anne Krueger, vice-diretora-geral do FMI, nada tem a ver com a improvisação de um ''acordo de transição'' para a troca de governo (ou de governante), lá em janeiro. Espécie de blindagem financeira ou cambial para a travessia de 2003.

A visita é menos da autoridade monetária global e mais da acadêmica americana licenciada. Ela estava agendada desde 2000 pelo 2002 Latin-American Meeting of the Econometric Society. O encontro científico de quatro dias, a partir de hoje, ocorre na Escola de Administração de Empresas da FGV-SP.

O temário é para estômago de avestruz. Econometristas de meio mundo vão discutir os impactos das recentes transformações da economia de mercado nas metodologias de cálculo da inflação, do câmbio, dos juros, dos riscos de crédito, das decisões estratégicas de governos e de empresas, dos índices de produtividade e das variações do PIB. Simples.

Mas é claro que a presença da vice-diretora-geral do FMI tem seu lado oficial para desfrute do ''mercado'' aparvalhado. Ela já se encontrou com Fraga, Malan e FHC. E bem que gostaria de bater um papo também com Ciro, Lula e Serra, por ordem alfabética. Se pinta aí pela proa uma prorrogação de ''transição'' para o guarda-chuva do FMI, os presidenciáveis seriam os maiores interessados em discutir o espichamento do acordo que expira em dezembro.

Está em jogo, desde logo, o fechamento das contas externas de 2003. Os governantes passam, os compromissos ficam. Nada de estranhamento um governo que sai preparar a cama (de plumas ou de pregos) para o governo que entra. Até por preceito constitucional, o Congresso igualmente na muda deve votar ainda este ano o Orçamento-Geral da União (OGU) para 2003.

Sim, o próximo governo vai ter de executar ao pé da letra e ao pé da verba as colunas de receita e despesa projetadas agora em julho e agosto pelo governo FHC. Execução do OGU bitolada pela Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e patrulhada pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF).

Politicamente, a execução do OGU 2003 para um novo governo sem sustentação parlamentar adequada torna-se um cabresto maior que um ''acordo de transição'' com o FMI. A menos que a satanização do FMI deixe certos candidatos e respectivos partidos com o coração na mão. Coincidentemente, os mesmos candidatos e partidos que sempre atacaram a LDO e a LRF.

Para o Banco Central, a necessidade da ração importada pode baixar de US$ 47,9 bilhões, este ano, para US$ 43,5 bilhões em 2003. Na remessa, soma do déficit de transações correntes (US$ 19,7 bilhões) com prestações da dívida externa (US$ 23,8 bilhões). No ingresso, aposta-se em US$ 18,5 bilhões das múltis e mais US$ 5 bilhões do saldo comercial. Créditos externos públicos e privados terão de cobrir US$ 20 bilhões.

Secos & Molhados

- Blindagem - Carlos Geraldo Langoni, da FGV, lembra que o nervosismo do mercado financeiro não mais faz distinção de país rico, pobre ou emergente - com risco 250 ou risco 2.500. Em sendo assim, não se deve abrir mão da blindagem cambial, tipo colchão de liquidez, pactuada com o FMI.
- Austeridade - O problema é que a transfusão do FMI exige a adoção de políticas fiscais e monetárias austeras. Ocorre que tais políticas têm de ser executadas com ou sem a cobertura cambial do FMI. Sem a qual ou não teremos crédito externo ou teremos crédito com taxas de risco extorsivas.
- Pela metade - Gastança pública não é crescimento. É inchaço. E fazer reformas de interesse nacional pela metade, como diz Drausio Giacomelli, analista do JP Morgan em Nova York, é tão inócuo como não fazer nada: ''Não se pode atravessar nem estancar nenhum rio com pontes e represas pela metade.''

www.joelmirbeting.com.br
[email protected]

mockup