JOELMIR BETING
''A ganância do presente não é maior que a ganância do passado. Os canais de expressão dela é que cresceram despudoradamente.''
Alan Greenspan, presidente do Fed (em 16/7/2002)
O reator da bolha
Segunda maior telefônica de longa distância dos Estados Unidos, com ativos de US$ 101 bilhões e dívidas de US$ 33 bilhões, a Worldcom acaba de entrar em concordata (física e moral). Com direito a um ''crash'', este ano, de 99,4% na Nasdaq. Sexta-feira, a ação da gigante estrebuchada estava oferecida a US$ 0,09.
Mais ruidoso e ruinoso que a queda física, o tombo moral resultou da maquiagem do último balanço contábil. Com toque de Midas, sob a cumplicidade da auditoria e a permissividade da legislação, ela transformou US$ 3,8 bilhões de despesas em receitas.
Armada para recuperar cotações e preservar reputações, a picaretagem contábil da Worldcom foi a décima terceira peça do efeito dominó acionado pela fraude da Enron, mamute da energia, flagrada em novembro do ano passado. No caso Enron, com agravante repulsiva para a cultura americana: a destruição de provas da falcatrua.
No caso Worldcom, uma revelação adicional não menos acachapante, detalhada pela revista inglesa The Economist.
Seguinte: situada na confluência tecnológica e mercadológica de telecom com datacom, pontocom e midiacom, a Worldcom vinha inflando ou fraudando índices de desempenho para todos os negócios plugados na Internet. Desde 1996.
A história é tortuosa. Ela fez uso da posição estratégica no front da revolução das tecnologias da informação para ''vender'' ao mercado de capitais e aos parceiros da Nova Economia que os negócios em rede da Internet estariam dobrando de valor a cada trimestre - sustentadamente. Verificação por ela atribuída à subsidiária UUNET, então a maior provedora de tráfego da Internet.
Saindo à frente nessa chutometria chipada, ela se fez acompanhar do tal de ''mercado'', chave de ignição da ''irracional exuberância'' de Wall Street, denunciada por Robert Shiller/Alan Greespan desde 1998. Naquele ano, o Departamento de Comércio, em relatório sobre as gulas da Web, não deixou por menos: a rede tinha tudo para crescer até 1.000% ao ano no quinquênio 1997/2001.
Resultado 1: no segundo semestre de 1999, pico da bolha, havia mais capitais do que projetos na horta da Nova Economia.
Com uma imberbe loja virtual, a Amazon.com, valendo em bolsa 43% mais que a heráldica General Motors, maior corporação do planeta. Resultado 2: o tráfego na rede esteve longe de dobrar a cada trimestre, mas a capacidade da rede, com todos os respectivos caronas, duplicou a cada sete meses, desde 1996.
A The Economist vai além. Ao inflar estatísticas de desempenho e de progressão para toda a Internet, a Worldcom tem algo a ver com a vida, paixão e morte da maior bolha especulativa da pirotécnica história do capitalismo opulento.
Secos & Molhados
- Inventário - Do estouro da bolha, em 10 de março de 2000, até sexta-feira última, o índice da Nasdaq acumula perdas de 73,9%. Os estilhaços do ''crash'' das empresas de tecnologia atingiram o Índice Dow Jones da Bolsa de Nova York. Cujo pico se deu em 14 de janeiro de 2000. De lá para cá, queda de 31,6%.
- Fome de urso - No conjunto de 14 bolsas americanas, o Índice Wilshire 5000 revela que o ''mercado urso'' (o da baixa) devorou, nas duas últimas semanas, US$ 1,4 trilhão do ''efeito riqueza'' sobrevivente das ações em poder do público. Analistas alarmados (ou alarmistas) sustentam que o fundo do poço ainda não foi atingido. A rebrota do ''mercado touro'' (o da alta) fica para 2003.
- Sem grilo - Sob controle da Worldcom concordatária, a Embratel está fora do imbróglio da matriz. O grilo dela é outro: a entrada da Telefônica no DDD a partir de São Paulo.
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