''O homem moderno é um agitado animal de quatro rodas e quatro partes: cabeça, tronco, membros e automóvel.''
Orson Welles (1915-1985), cineasta americano

Abaixo da metade

Férias coletivas, semanas de quatro dias, demissões voluntárias. Tripé flexível das montadoras para a desova de estoques e a proteção de empregos. Programa de transição pactuado com os sindicatos e com as comissões de fábrica. Até que um novo ciclo de vacas gordas substitua o atual ciclo de vacas magras.
Enquanto os sindicatos relançam a proposta até aqui engavetada de um plano de substituição incentivada da frota já sucateada, algumas montadoras atacam a retração do mercado com as trombetas do marketing de guerra. Entre feirões e promoções, preços de tabela a prazo, sem juros, em 12 prestações. Com alguns opcionais de graça.
O enrosco do mercado de carros novos, com sobras para o mercado siamês de carros usados, resulta de um vácuo estrutural agravado por um vazio conjuntural. O primeiro: capacidade instalada para até 3,2 milhões de unidades por ano para uma demanda aparente de 1,5 milhão. Menos da metade.
O segundo: em três anos, queda real de até 14% no poder de compra do mercado interno. Seja por redução do salário real, seja por atrofia do emprego geral. Reserva de consumo igualmente erodida por impostos maiores e por créditos menores.
A cunha fiscal em cascata do automóvel de passageiros alcança 43% dos preços de loja. Para o Fisco guloso, carro particular é bem de consumo supérfluo ou suntuário, na mesma categoria do perfume, da cachaça e do cigarro. Afinal, se até antibiótico ainda paga 29,2% de impostos na farmácia da esquina, por que aliviar a carga tributária do automóvel ?
A carona financeira não deixa por menos. Na espichada cadeia automotiva, indústria de montagem por definição, os custos financeiros para investimento, giro e consumo respondem por quase um terço dos preços finais. Simplesmente, o automóvel mais tributado e escorchado do mundo.
Resultado: o mercado interno não pode ir além de metade da capacidade instalada. E o mercado externo, não menos em marcha lenta, é repasse cativo das matrizes americanas, européias e asiáticas. Ou subproduto de acordos automotivos bilaterais que exaurem a vontade e a paciência da diplomacia comercial.
O encalhe das montadoras sem alternativa, da ordem de 44 dias de produção, transmite choques encavalados para os fornecedores pelo portão dos fundos e para os distribuidores pelo portão da frente. Uns e outros igualmente estocados e já devidamente reestruturados e enxugados. Acabou o elástico.
O elástico da produtividade setorial. Nas montadoras, os 94 mil profissionais remanescentes da reestruturação estão definitivamente qualificados. Essa capacitação em massa durou quase uma década e virou o ativo mais precioso das empresas. Deixou de ser recurso descartável.
Secos & Molhados
- No desvio - Nos cálculos realistas da Anfavea, remontados em janeiro, contava-se com aumento de 3% nas vendas de 2002. No primeiro semestre, redução de 13%. O presidente Ricardo Carvalho aposta em forte reação no último trimestre pós-eleição. Tempo de estouro da atual bolha especulativa do Apocalipse.
- Na baixa - Tempo de vacas magras para todos é tempo de compra a preços e prazos de pechincha. Tal como as ações em bolsa, a vantagem é de quem comprar primeiro. Há uma extensa demanda reprimida parada no acostamento. Ela tem limite para recolocar-se em movimento.
- Na toca - Única certeza: com crédito ou sem crédito, com imposto ou sem imposto, quem compra automóvel compra otimismo. Logo, quando a sinistrose abunda, com ou sem raiz ou matriz, o negócio é garibar o carro usado e estacionar na poupança financeira de São Lucas. Feita de privação e renúncia.
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