''O nó cego da confusão americana chama-se Bush. Onde ele põe a mão ou bota fogo ou deixa queimar.''
Vinicius Torres Freire, jornalista

Ganância infecciosa



É tudo muito simples, suspirou terça-feira Alan Greenspan, o ''senhor dos mercados'', agora vestido de bombeiro. Por obra e desgraça da ''ganância infecciosa'' do mundo empresarial americano, o estouro da bolha da ''irracional exuberância'' do triênio 1997/1999 infectou a economia mais poderosa do planeta (e da História) com o vírus da ''irrational insegurança'' nesta travessia do triênio 2000/2002.

Lembram-se da bolha? Ela ergueu em Wall Street as torres gêmeas virtuais da prosperidade econômica e da opulência financeira - com estabilidade monetária. Do que resultou, em bolsa, a expansão bola-de-neve do chamado efeito riqueza. Uma riqueza da variedade ''pecunia parit pecunia'' , democraticamente compartilhada por 86 milhões de americanos, todos com pé-de-meia plantado em ações e fundos de ações.

Em dezembro de 1999, esse patrimônio coletivo, multiplicado biblicamente pelo valor de mercado de quase 75 mil empresas de capital aberto que transitam por todas as bolsas americanas (e não apenas pela Nyse ou pela Nasdaq), totalizou nada menos de US$ 17,2 trilhões, segundo o Índice Wilshire Total Market, revisado na semana passada. Esse índice pondera todas as bolsas dos Estados Unidos.

Foi em 11 de março de 2000 que se deu o primeiro vazamento da bolha de 1997/1999. Do pico da véspera ao piso de 30 de junho último, o Wilshire acumulou queda de 41%. Um desmanche telúrico de US$ 6,8 trilhões no valor de mercado das corporações listadas em bolsa. Ou no efeito riqueza de seus 86 milhões de acionistas.

Quando, em abril de 1999, Alan Greenspan pela primeira vez fez uso do clichê do professor Robert Shiller e brandiu no Senado e na televisão a bolha da ''irrational exuberance'' de Wall Street e agregados online, a Nasdaq ostentava valorização anual da ordem de 86%. A Nyse exibia ganhos líquidos de 24% ao ano, o dobro da média histórica anual do pós-guerra.

Era um autêntico folclore capitalista. No Natal de 1999, Jeff Bezos virava capa ''The Man of de Year'' da revista Time. As ações em poder do público de sua empresa virtual Amazon.com valiam US$ 122 bilhões (na mesma data, as da General Motors não passavam de US$ 87 bilhões).

Na primeira terça-feira de dezembro do mesmo ano, Larry Augustin, fundador da VA Linux Systems e dono de 16,2% do negócio, entrou na Nasdaq com um certificado de IPO (Initial Public Offering) na mão em busca de uma primeira legião de sócios anônimos. No mesmo dia, as ações ofertadas subiram 733% e Augustin voltou para casa com US$ 1,6 bilhão no bolso do colete.

No caminho, comprou um Le Pin 63 para brindar com a esposa.

Secos & Molhados

- Retomada - Agora, julho de 2002, Alan Greenspan espanca a ''insegurança irracional'' dos mercados com a mesma chibata com que bateu na ''exuberância irracional'' até março de 2000. Disse ele, terça-feira, no Senado, que a economia americana já está dando a volta por cima: IPC abaixo de 1,5% e PIB acima de 3,5%.

- Irracional - Ocorre que, se a racionalidade econômica passa ao largo dos mercados financeiros (o Brasil que o diga), de nada adianta Greenspan colocar as compressas dos bons fundamentos do sistema nos focos da ''ganância infecciosa'' do mundo empresarial - incluídos os negócios da economia real.

- Repulsão - A derrubada anunciada das torres virtuais de Wall Street (antes mesmo da derrubada terrorista das torres físicas) reencarnou o fantasma da aversão ao risco na cuca de 86 milhões de investidores. E a erupção das bilionárias fraudes contábeis de heráldicas estrelas do ''big business'' deixa o mercado pisando em lavas. Haverá outras fraudadoras de peso na praça da matriz?

www.joelmirbeting.com.br
[email protected]

mockup