''Nada tem de complicado fazer boa carreira política no Brasil. Basta não deixar o cabrito morrer nem a onça passar fome.'' Sérgio Porto (1923-1968), o Stanislaw Ponte Preta

Pesquisas gasosas - 3



Pelas pesquisas de intenção de voto, nas presidenciais de 1994 e 1998, tem-se que as posições de julho (ou até julho) tendem a ser jogadas no ralo pela reviravolta de agosto/setembro, reta de chegada das urnas de outubro. É como se, em agosto, começasse a Copa do Mundo, após uma série de amistosos de preparação. Ou, no caso, de coligação.

Qual tem sido o fato recorrente de agosto? Nada a ver com reversão de expectativas na economia ainda em transe. Nem mesmo com algum incidente grave em alguma greve. Ou com eventual recarga do escandalômetro político, que não mais abre exceção para nenhum dos partidos de peso.

O que tem ocorrido em agosto, com o devido aviso prévio, é a ignição do horário eleitoral gratuito, único no mundo. Como vimos na coluna de ontem, os palanques televisivos gratuitos, em horário nobre, chegam aonde as pesquisas eleitorais preguiçosas não chegam: os dois terços do eleitorado nacional, espalhados pelo Brasil interiorano. De resto, de perfil conservador.

Não sou analista político, mas me atrevo a dizer que a maioria dos analistas políticos da multimídia verde-amarela, dos partidos na raia, das consultorias empresariais, das esfinges financeiras, das áreas acadêmicas e, fechando a roda, dos institutos de pesquisas não tem dado a devida importância ao efeito televisão no processo eleitoral brasileiro.

Para dois terços do eleitorado, de baixo para cima das pirâmides da escolaridade, da informação e do discernimento, só existem, por enquanto, sete nomes dando sopa no cardápio político: Lula, Sarney, Itamar, Maluf, Enéas, ACM e FHC. Para este novo Big Brother do TSE, Lula é o único escalado dos sete. Ele vai ter de concorrer com as caras novas de Serra Quem? e Ciro Quem? Assim como os Fernando Quem? replicados acabaram triunfando nas urnas de 1989 e 1994 (com repeteco em 1998).

Eis a questão: o efeito Big Brother do horário gratuito e nobre, já na contagem regressiva para as urnas, ultrapassa o próprio efeito televisão. O mesmo que acaba de colocar azeitona gordal na empada de Ciro Gomes - o de melhor rendimento nas entrevistas do Jornal Nacional. O resto vai à conta do ''coeficiente de empatia'' (positivo ou negativo) de cada candidato, independentemente do partido ou do programa de governo. Televisão é empatia.

No caso brasileiro, horário gratuito por exagerada sequência de 60 tardes e 60 noites, há que se levar a sério, na análise eleitoral de chegada, dois outros indicadores do efeito televisão: a) o da inclusão social da TV, presente em 86% dos domicílios para 94% dos eleitores, incluídos os televizinhos; b) o do conteúdo nacional que hoje cobre 83% da grade de programação das redes. Ou seja: o povão adora a televisão. E a televisão decide a eleição.

Secos & Molhados

- Ativo do PT - Estudo da PUC-RJ, chefiado pelo professor César Romero Jacob, comentado ontem nesta coluna, demonstra que o capital eleitoral do PT (com Lula) não tem passado de 33% dos votos válidos, segundo as presidenciais de 1989, de 1994 e de 1998. Este seria o tamanho do ''eleitorado de esquerda'' no Brasil.

- Ressalvas - Com duas ressalvas: 1) dois terços do eleitorado de esquerda estão estacionados nas áreas metropolitanas (perímetro das pesquisas eleitorais disponíveis); 2) um terço do mercado cativo do PT é integrado pelo funcionalismo público necessariamente corporativista.

- Efeito 2000 - O estudo da PUC-RJ faz distinção de fundo entre escolha de presidente e escolha de prefeito. Nas presidenciais, pesam as coligações. Nas municipais, é cada partido por si e povo para todos. Nas municipais de 2000, o PT totalizou 29% dos votos nos 5.534 municípios do Brasil.

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