''A estatística é a sofisticada técnica matemática de torturar os números até que eles confessem.''
George Bernard Shaw (1856-1950), escritor irlandês

Pesquisas gasosas - 2
O Brasil metropolitano é menor que o Brasil interiorano. Vitória eleitoral no segundo pode reverter derrota eleitoral no primeiro. As demandas populares na Metrópole não são as mesmas do interior. Há candidatos (e partidos) bons de voto nas grandes cidades, assim como há candidaturas (e coligações) boas de voto nas médias e nas pequenas. Sem contar, em bloco, as preferências políticas de caráter estadual e/ou regional.
Assinado: Pedro Bó, sobrinho do Conselheiro Acácio. Só falta avisar os institutos de pesquisas eleitorais. Eles não arredam a luneta das áreas metropolitanas. Ainda assim, garimpando as intenções de voto de pouco mais de 2 mil eleitores na soma de todas elas. Pode?
Para o cientista político César Romero Jacob (PUC-RJ), os institutos de pesquisas andam assumindo contratos de risco severos com a margem de erro um tanto quanto estreita. Não mais se trata, agora em 2002, de eleições municipais. Nem só de eleições estaduais. Mas, principalmente, de eleições presidenciais.
À frente de uma equipe de pesquisadores do assunto, o professor César Romero Jacob, em entrevista à revista Conjuntura Econômica, da FGV, edição de junho, não deixa por menos: ''As pesquisas de intenção de voto ainda não refletem nossa realidade porque são feitas nas grandes cidades. Pois é nas médias e pequenas cidades que as eleições majoritárias costumam ser decididas.''
O estudo do grupo da PUC-RJ toma como referência os resultados das eleições presidenciais de 1989, 1994 e 1998, com sobras para as eleições municipais de 2000. Foi identificada uma não desprezível semelhança porcentual entre a geografia eleitoral vencedora de Collor e a geografia eleitoral bivencedora de FHC. Ou na recíproca: uma caprichosa semelhança na geografia eleitoral perdedora de Lula em 1989 (segundo turno), 1994 e 1998.
Os pesquisadores da PUC-RJ ressalvam as especificidades de 1989. Que César Romero Jacob chama de ''uma eleição solteira''. Primeiro: retomada das diretas para presidente. Segundo: eleição só para presidente (com nada menos de 22 candidatos). Terceiro: deu segundo turno. Diferentemente, as eleições de 1994 e 1998, tal como estas de 2002, abrem as urnas para presidente, para governador, para deputados estaduais, para deputados federais e para 2/3 do Senado.
A coligação de FHC faturou as duas últimas (com a cunha da reeleição em 1998). Coligação, eis a questão. Nenhum partido de massa pode cantar de galo em todo o território nacional. Não teria cacifes nem caciques para tamanha empreitada. Se partido de corte metropolitano, aí corre o risco de não chegar sequer ao segundo turno.
Secos & Molhados
- Cobertura - Os mapas de 1994 e 1998, sopesados pela equipe da PUC-RJ, revelam que partidos de base metropolitana não chegam ao interior. Mas os que têm no papo currais e grotões por todo o território nacional estão presentes também nas metrópoles.
- Desfocada - Em sendo assim, pesquisa eleitoral que se contenta com sondagem metropolitana trabalha com amostragem de 33% do eleitorado. E com perfil de centro, adernado para a esquerda. Portanto, pesquisa desfocada, ao largo de dois terços da realidade política do País, diz César Romero Jacob.
- Reviravolta - Em 1994 e em 1998, as pesquisas de janeiro a julho tiveram reversão com as pesquisas de agosto e setembro e com as urnas de outubro. O que tem ocorrido entre julho e outubro? O horário eleitoral gratuito. Que chega aonde o Ibope não chega: os outros dois terços do Brasil, de perfil conservador.
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