''Pesquisas comprovam que 74,9% dos eleitores não acreditam em pesquisas eleitorais.''
Art Buchwald, humorista americano
Pesquisas gasosas
O Brasil capinanceiro, o do parasitismo do dinheiro, vive mais uma terça-feira com a respiração pelo edema da glote. O Jornal Nacional divulga hoje a nova prévia eleitoral do Ibope. Com dados fechados a partir do garimpo das intenções de voto na sexta, no sábado e no domingo.
Nada contra a probidade dos produtores das pesquisas do ramo. Mas, em tempo de informação na velocidade da luz, com 14 milhões de domicílios brasileiros já plugados na internet, soa anacrônico esse trombone medieval de 2 mil falantes em nome de 111 milhões de eleitores. Não daria para ampliar a amostragem estatística para 12 mil entrevistados? Falta dinheiro, falta vontade ou falta cobrança?
Única certeza: os institutos de pesquisa de opinião, no Brasil e no mundo, costumam aprumar-se para o mesmo delta. E não apenas por contingência científica - também por conveniência política. Quando todos erram juntos, ninguém perde o cliente nem a pose. O risco letal é justamente o de errar sozinho. Aí, o negócio é fechar as portas. Foi o que fez, entre nós, o Gallup.
Pelo sim, pelo não, o mestre Millôr Fernandes lança a pesquisa: ''Em quem você votaria para presidente? No Ibope, no Datafolha, no Sensus ou no Vox Populi?''
Eis que a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), xerife platônico do mercado de capitais, levanta a mão na fila do gargarejo das pesquisas eleitorais: a) institutos privados de pesquisas podem fazer pesquisas para uso público; b) instituições financeiras é que não deveriam encomendar pesquisas para consumo próprio e muito menos para divulgação posterior dos resultados.
O novo presidente da CVM, Luis Leonardo Cantidiano, atira na codorna e acerta no cachorro: pesquisas por encomenda de agentes financeiros podem monitorar manipulações de mercado pelos detentores privilegiados de cada sondagem eleitoral. De posse dos resultados, nada impede que tais instituições (e respectivos clientes preferenciais) refaçam posições de mercado para revenda ou recompra com lucro (sem risco) após a publicação da nova pesquisa.
Algo parecido estaria ocorrendo, no mercado global, a partir de Wall Street, com a produção e a difusão das classificações de risco de empresas, governos ou países por agências privadas de ''rating'', escoltadas por meia dúzia de bancos de investimento. Umas e outros batendo hoje no Brasil feito mulher de malandro. Por causa de nossas pesquisas eleitorais...
Correspondente da CVM brasileira, a SEC americana pretende rastrear esse tipo de negócio. No meio da praça de tiroteio das bilionárias fraudes contábeis do ''big business'', a SEC fareja algo gangrenado no sistema. Algo muito além de deslizes éticos do gênero ''conflitos de interesses''.
Secos & Molhados
Derivativo
Esta é a primeira corrida presidencial no Brasil que levanta poeira e rompe pedreira nos mercados de bolsas, de fundos e de moedas. Por linhas tortas e tristes, as pesquisas eleitorais, também elas voláteis ou gasosas, transformaram-se no maior ''derivativo'' do sistema financeiro aqui da Botocundia.
Chutometria
Ganha-se ou perde-se muito dinheiro a cada corcova do efeito Lula, do efeito Serra, do efeito Ciro. Os próprios presidenciáveis fazem de palanques para granjeiros e marreteiros ''recados cifrados'' para o tal de ''mercado''. Somos 174,4 milhões de reféns de meio milhar de especuladores.
Efeito Pilatos
Dirigentes de institutos de pesquisas lavam as mãos: não se responsabilizam pelo que o cliente da sondagem por encomenda faz com seus resultados. Um deles filosofa: ''Somos como usinas de aço. Pois do aço pode sair o punhal que mata ou o bisturi que salva.''

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