JOELMIR BETING
''Pra uns, as vacas morrem doentes; pra outros, até bois pegam a parir.''
João Guimarães Rosa (1908-1967), diplomata e escritor
Mercado ajuizado
Ajuizado? Que mercado? O mercado real da economia dos litros, dos metros, dos quilos, das horas, dos serviços, dos impostos, das empresas e das pessoas que trabalham, produzem, consomem e poupam poupança de São Lucas, feita de privação ou renúncia.
Seguinte, no acumulado de oito anos corridos do Plano Real, programa de estabilização do IPC (fator condicionante) e não de reaceleração do PIB (fator condicionado), temos que os preços em liberdade plena subiram bem menos que os preços ainda tabelados, administrados e/ou reindexados pelo governo.
E mais: os preços livres sob a metralha da concorrência aberta e franca, como nunca antes na ''protegida'' economia dos cartórios e dos oligopólios privados (com sobras para os monopólios estatais), subiram também bem menos que os preços livres em mercados de baixo ''coeficiente concorrencial''. Sobretudo, os dos serviços blindados contra a competição importada.
Falam os números da Fipe, divulgados quinta-feira. A central de pesquisas econômicas da USP responde pela captação e produção dos índices semanais da carestia na cidade de São Paulo, endereço de 10 milhões de consumidores de todas as idades e classes de renda. De julho de 1994 a junho de 2002, IPC acumulado de 103%. O IGP-FGV, onde os preços na produção (incluída a construção) têm peso 70 e no consumo 30, deve ter ficado em 141%.
Tanto no IGP da FGV como no IPC da USP, tem-se que nos mercados chocados pela competição interna, returbinada pela competição externa, os preços em liberdade, sem CIP e sem Sunab, funcionam ainda hoje como a verdadeira âncora da estabilização do real. Aqui e ali, com laivos de deflação mensal.
Item mais sensível da cesta básica, o do comer ou morrer, a alimentação dos paulistanos acumula na barriga do IPC de 103% remarcação de 60%. O que ajuda a explicar uma variação da cesta básica, no período, abaixo de 50%.
Bem, a âncora verde, que deu carona às carnes brancas, escapou de choques de oferta (acidentalidades). E teve, no mesmo período, preços reais deprimidos em mais de 30% nos mercados externos. Sem contar as inibições cambiais até janeiro de 1999.
Ocorre que a âncora dourada do real não foi notícia, suspira o pessoal da Abravest e da Abit. O item vestuário fechou o longo ciclo com os preços finais rigorosamente estabilizados. Com inflação zero no ponta a ponta do IPC da Fipe. Ou precisamente: remarcação, em oito anos, de 0,3%. As sazonalidades do clima e as vulnerabilidades da moda foram sistematicamente deletadas por encalhes e promoções.
Fio da meada: abertura do mercado para o similar importado e para o produto nacional falsificado aplicou choques de competição sem paralelo no vestuário.
SECOS & MOLHADOS
Collorstroika
A competição em diversos setores começou pela collorstroika de 1991/1992. A competitividade da indústria nacional, plantada na época, só veio a ser colhida (e ampliada) a partir de 1994/1995, já nas águas quentes do real. Modernização e concorrência são as âncoras ocultas e perenes do real.
Blindados
Nos mercados blindados contra a importação de bens e serviços, a inflação residual da estabilização deitou e rolou e continua a rolar. Como ninguém consegue importar casas e apartamentos, nem sequer financiá-las decentemente aqui dentro, o aluguel residencial acumula em oito anos alta de 535%.
Monitorados
Nos ''preços administrados'' (pelo governo), o IPC da Fipe acumulou 181% na educação, 192% na habitação, 211% na gasolina, 222% na saúde, 231% no transporte coletivo, 398% no gás de fogão e 445% na telefonia.





