JOELMIR BETING
''Quando um ascensorista começa a falar de suas aplicações, é chegada a hora de sair correndo do elevador e da bolsa.''
Nelson Rockefeller (1908-1979), magnata americano
Bovespa & Coca-Cola
A Bovespa acaba de resvalar para o exato tamanho da Coca-Cola. Nenhum dólar a mais ou nenhum gole a menos. O valor de mercado do estoque de ações de todas as empresas brasileiras e filiais estrangeiras negociadas na Bolsa de Valores de São Paulo deve ter virado o semestre pelo contracheque de US$ 140 bilhões. Exatamente o mesmo valor de mercado da Coca-Cola em Wall Street.
No semestre, o estoque da Bovespa experimentou, por motivos oblíquos, um tombo telúrico de 25%, em dólar médio do período. O valor de mercado em bloco estava em US$ 186 bilhões em 29 de dezembro, último pregão de 2001. No período, a Coca-Cola escalou de US$ 117 bilhões para US$ 140 bilhões, na contramão da derrapada geral made in Usa e abusa.
Derrapada ou catástrofe? Na véspera do estouro da bolha da ''irrational exuberance'', em 11 de março de 2000, o ativo global de todas as ações em poder do mercado valia US$ 35,4 trilhões (dos quais, 64% nos Estados Unidos). De lá para cá, as perdas acumuladas aqui na ponta de junho de 2002 são da ordem de US$ 9,1 trilhões.
O inventário global é da Federação Internacional de Bolsas de Valores (FIBV). Que fechou em 30 de junho o ''ranking'' das 10 empresas de maior valor de mercado em todo o mundo. Sem surpresa: nesse ''top ten'' do capitalismo orgânico, a do sócio no lugar do credor, nove corporações americanas e uma inglesa. E como já era esperado: das sete empresas de tecnologia do ''top ten'' de 1999 restou apenas uma, a líder Microsoft .
Pela ordem, eis o novo ''ranking'' da FIBV, encomendado pela Bloomberg News (com valor de mercado em US$ bilhões): 1) Microsoft, 285; 2) General Electric, 283; 3) Exxon-Mobil, 276; 4) Wal-Mart, 242; 5) Pfizer, 212; 6) Citigroup, 198; 7) British Petroleum, 191; 8) AIG Seguros, 175; 9) Johnson & Johnson, 152; 10) Coca-Cola, 140.
Primeira da lista global, a Microsoft manteve a pose, mas perdeu a dose. Em dezembro de 2000, valia US$ 534 bilhões. Lembram-se? E só desfila hoje na liderança porque a Cisco baixou a crista de US$ 543 bilhões para US$ 97 bilhões. Ou porque a General Electric, agora colada em segundo, com US$ 283 bilhões, foi desvalorizada em 29% no semestre (contra 19% da Microsoft).
O ''crash'' mais clamoroso foi o da Lucent, maior fábrica de patentes high tech do mundo e da história, desmembrada da AT&T. Com 38 mil técnicos e cientistas a bordo (12 jubilados do Nobel), a Lucent valia US$ 229 bilhões no cocuruto da bolha telecom/datacom/pontocom. No mês passado, US$ 5,6 bilhões.
Igualmente banidas do ''top ten'' de mercado, seis empresas de tecnologia, lideradas pela IBM e pela Intel, purgaram, em conjunto, uma desvalorização da ordem de US$ 1,1 trilhão. Vai daí que o Índice Nasdaq Composto, barômetro da Nova Economia, acaba de fechar junho 66% abaixo de 1999.
Secos & Molhados
Ajuste severo
O estouro da bolha em bolsa não foi uma tragédia. Para a economia real, foi uma solução. O perigo maior morava na bolha da especulação paranóica e não na onda da revolução tecnológica esta, de resto, com vento pela popa. Tem-se que houve um ajuste técnico, necessariamente de choque, para um mercado que não é técnico.
Dispersão
No estouro da bolha, o mercado acionário reabriu o leque da diversidade capitalista. Os investidores voltaram a fazer posição em empresas da velha economia (modernizada pela nova economia). Que o diga o novo ''top ten'' do mercado. Reabriu-se espaço para petróleo, energia, química, farmacêutica, refrigerante, finanças e varejo.
Viés de baixa
Analistas distressados sustentam que o ajuste do mercado ainda não bateu no fundo do poço. As ações americanas, européias e asiáticas ainda valem mais do que pesam. Mas as brasileiras pesam bem menos do que valem.
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