JOELMIR BETING
''Exigimos disciplina e objetivos claros apenas no futebol. Na Política, não.'' Oliveiros S. Ferreira, cientista político
Efeito Felipão
''O sucesso do técnico Luiz Felipe Scolari deveria servir de modelo mui útil para a política econômica do próximo presidente do Brasil. Este vai precisar adotar uma estratégia disciplinadora e com total disposição para arriscar medidas impopulares.'' Assinado: The Financial Times, no editorial da edição de segunda-feira.
A estratégia disciplinadora (ou aglutinadora) de Felipão transitou pelas entrelinhas da autodenominada Família Scolari. A tomada de ''medidas impopulares'', do tipo descarte de Romário desagregador, mas preferido de 99% do Brasil torcedor, talvez seja a maior das carapuças amarelas que Felipão remete para as cabeças ainda não coroadas de Lula, Serra, Ciro, Garotinho & Cia.
Assumir decisões corretas, mas impopulares, responde a fundamentos da gestão da chamada ''coisa pública'' (entre nós, mais coisa do que pública). Afinal, ensinam os estadistas que nem tudo o que o povo quer é realmente o que o povo precisa.
A classe política que o diga. Ela faz da gastança pública um capital político precioso. Investe-se na próxima (re)eleição, sempre a dano da próxima geração. É a soma das partes sempre maior que o todo. Com os rombos decorrentes invariavelmente cobertos menos por redução dos gastos e mais por ampliação dos tributos. Conta de chegar que faz do orçamento público uma ficção contábil digna do balanço auditado de uma Enron.
Ou como já resumia o Barão de Itararé, lá nos idos getulistas dos anos 40: ''O orçamento é uma conta que o governo faz para saber onde vai aplicar o dinheiro que já gastou.'' Eis o DNA de uma cultura política permissiva praticada festivamente por governos que não governam porque não se governam nem se deixam governar.
Qual é o problema? O endosso das urnas eterniza essa patifaria institucional. A tal ponto, que ainda temos por aí toda uma ninguenzada batendo no peito para justificar, candidamente, a votação em corrupto contumaz: ''Ele rouba, mas faz.''
Com o mouse nessa mesma ferida, o jornalista Oliveiros S. Ferreira, professor de Ciência Política na USP e na PUC/SP, escreveu ontem que os brasileiros, sem exceção, deram de cobrar clareza, disciplina e limpeza no futebol, mas não, necessariamente, na ''práxis'' política.
De resto, confrarias partidárias não por acaso infestadas de exemplares de uma espécie ainda longe da extinção: a cartolagem incompetente e oportunista. Ela deve continuar fazendo do futebol pentacampeão dentro do campo o maior perna-de-pau fora dele. E a MP 39, de junho, tentativa de modernização e/ou moralização da Pentabrás F.C.?
Ela só veio à luz porque havia o ''spot'' de uma CPI de tocaia.
E também porque a bancada da bola ainda reza pela cartilha do Coronel Heráclito: se a lei é fraca, a gente passa por cima; se a lei é forte, a gente passa por baixo.
Secos & Molhados
Até quando?
Efeito Felipão é dar um basta à desorganização. Se ganhamos o Penta, jogando metade do que sabemos, podemos e devemos jogar, é porque, neste Brasil ainda por fazer, pagamos tributo ao desperdício cevado pela nossa secular cultura da abundância. Desperdício de terra, mata, água, energia, gente, trabalho, sossego e futebol.
Quanto tempo?
No ''front'' da Copa do Mundo da Morte, em 1942, o inglês George Orwell profetizou a Copa do Mundo da Bola, em 2002. Escreveu: ''Vejo soldados senegaleses, recrutados pelos franceses, partindo para lutar em campo aberto contra os alemães. Por quanto tempo enganaremos essa gente? Quanto vai demorar para que eles voltem suas armas para outra direção?''
Seis décadas
No The Washington Post, o ensaísta Jim Hoagland desarquiva a profecia de Orwell: ''Os senegaleses acabam de voltar suas bolas contra os franceses. Eles destruíram a empáfia gálica de 1998 logo na festa de abertura de 2002. Esperaram 60 anos por isso. No outro lado do mundo. No mundo de cabeça para baixo.''





