Joelmir Beting
O futebol não esperou pela globalização. Antecipou-se a ela. É hoje nossa única janela para enxergar o espírito do mundo.
Toni Negri, sociólogo italiano
Por bolas tortas
A crise dos foguetes soviéticos amoitados em Cuba, nos idos kennedyanos de 1962, fervente estertor da guerra fria, foi desencadeada pela aversão dos americanos ao football association. Futebol global que eles ainda hoje chamam de soccer, inventado pelos ingleses no século 19 e faturado pelos brasileiros pela segunda vez naquele mesmo ano de 1962.
O tortuoso raciocínio é do jornalista William Safire, colunista político do The New York Times. Ele se serve de um detalhe de arquivo não mais selado de Washington. Seguinte: satélites americanos de espionagem sideral detectaram a presença de técnicos e operários soviéticos na Ilha de Fidel. De que maneira? Presença identificada pela marcação de campos de futebol ao lado de esquisitas instalações recentemente construídas em pontos diversos de Cuba.
Como já era então sabido, os cubanos, a exemplo dos americanos, não trocariam o beisebol pelo futebol por nada neste mundo. Logo, só quem não gosta de futebol teria a atenção despertada por campos de futebol improvisados na relva. Então, as brilhantes cucas da Agência Central de Inteligência (CIA) não perderam sequer um minuto para deduzir diante desse comprovante de aerofotogrametria via satélite: tem russos atrás da bola e tem míssil atrás dos russos. Bingo!
William Safire retoma esse gancho futeboleiro para sustentar que a diplomacia da guerra fria permanece ativa e não vacila em fazer outra vez dos campos de futebol o pasto e o repasto de suas ardilosas maquinações. Segurem-se nas cadeiras: para Safire, a seleção americana, metida a besta nesta Copa 2002, agiu patrioticamente ao perder para a Alemanha nas quartas-de-final...
Como é que é? O colunista do The New York Times não está sozinho. Ele se faz acompanhar de tese semelhante desfiada pelo cientista político John Vinocur, em entrevista na véspera do jogo, ao The International Herald Tribune, de vasta penetração na Europa e na Ásia. Entrevista que rendeu o título: Deus abençoe a América - e deixe os EUA perderem.
John Vinocur soletrou que um triunfo americano nesta Copa da Fifa, de resto impensável antes dela, levantaria novas e assustadoras ondas de antiamericanismo em todo o planeta usurpado. Yes, nos tratos da bola os americanos ainda são estranhos no ninho, para não dizer usurpadores da festa alheia. Nada pois de se atreverem a ganhar título de campeão ou de vice no esporte favorito dos outros (único jogo global, porque o único onde a riqueza não reina).
Ou como disse John Vinocur: Diplomatas americanos esperavam que a seleção fizesse boa figura na chave da Coréia, mas não se sentiriam confortáveis se ela decidisse o título no Japão. Isso teria sido um enorme choque psicológico para o futebol mundial e um custo diplomático pesado para a pax unipolar americana. Seria inaceitável para o restante do mundo que até na bola dos outros eclodisse agora a supremacia da hiperpotência hiperbólica da Terra.
SECOS & MOLHADOS
Reservas
Que Brasil e Alemanha, ambos do ramo, briguem hoje olimpicamente pela Copa 2002. Brasil favorito em todos as bolas e bolões. Afinal, são 11 titulares brasileiros contra 8 reservas alemães. Por contusões e atritos, ficaram na Alemanha Scholl, Heinrich, Nowotny, Worns, Babbel e Zikler. Perderam Deisler nas oitavas e agora Ballack na final.
Superação
Time alemão de reservas é detalhe sonegado entre nós. O problema é que eles se superam em todas as Copas e jogam mais do que sabem e do que podem. O Brasil, bem ao contrário, deixa-se subtrair no talento e na técnica por táticas marciais do tipo 4-3-3, 3-5-2, 4-5-1, 4-2-4, 3-4-1-2. Dá para tomar uma Selic antes?
Balancete
De Mauro Beting, comentarista da TV Record: a) em seis jogos, o Brasil criou 42 chances de gol e converteu 16, com aproveitamento de 38%; b) em seis jogos, a Alemanha criou 23 chances e converteu 14, com aproveitamento de 60%. Vamos passar giz no bico?





