Joelmir Beting
A confiança perdida nos negócios é difícil de recuperar. Ela não cresce como as ervas nem como as unhas.
James Mirrlees, Prêmio Nobel de Economia (1996)
Lex mercatoria
No topo de um poderoso conglomerado de telecom/midiacom, a WorldCom americana acaba de ser pilhada em flagrante no maior pecado de comunicação da economia capitalista: a maquiagem dos demonstrativos contábeis, nas barbas das auditorias do ramo e nos bigodes das oniscientes agências classificadoras de riscos.
Em toque digno da alquimia de Midas, a WorldCom converteu despesas em receitas. Despesas reais em receitas contábeis. Do que se pretendia beneficiar no tripé: a) transmitir ao mercado investidor uma ficha fajuta de competência corporativa e governança idem; 2) proteger empregos de executivos e consultores; c) refazer posições de mercado ou de portfólio antes de uma eventual ruptura da falcatrua.
A WorldCom simplesmente virou clone da Enron. Cuja fraude de semelhante calibre e de idêntico recheio veio à luz em outubro e mereceu de Paul Krugman o veredicto premonitório: 1) o mundo não vai mudar pelo antes ou depois de 11 de setembro; 2) o mundo começa a mudar agora pelo antes ou depois do escândalo Enron; 3) até porque, dezenas de outras Enrons da vida devem estar amoitadas por aí.
Eu acrescento: se Bin Laden e Al-Qaeda destruíram as torres físicas de Wall Street, os casos Enron e WorldCom acabam de deitar abaixo as torres morais de Wall Street. Umas e outras tomadas como ícones do capitalismo fundamentalista de mercado.
A invenção da sociedade anônima de capital aberto, sócio no lugar do credor, constitui o DNA da opulência capitalista e da hegemonia americana. Onde a revolução do capital no lugar do crédito ou da dívida começou há dois séculos pela Singer e pela Colt. Antes, o capital escasso demarcava os limites do mercado. Desde então, o capital não teve mais limites e o mercado idem.
Ocorre que esse processo telúrico, que no Brasil ainda não passa de arremedo, tem um fiador único: a fé pública dos investidores anônimos nos demonstrativos contábeis das empresas.
Transparência patrulhada por auditores fiscais e por líderes sindicais. São os demonstrativos contábeis, tecnicamente sofisticados, que determinam o grau de participação de investidores, coletores e trabalhadores nos resultados (positivos e/ou negativos) da empresa.
Sem essa corrente de lex mercatoria o capitalismo opulento do século 21 ainda estaria pouco à frente do mercantilismo medieval do século 17. E as empresas globais ainda seriam empresas locais, no apertado perímetro do capital próprio ou da dívida em banco.
Eis a ponta do iceberg Enron ou do iceberg WorldCom na rota do Titanic de um mercado global de capitais que hoje estoca, em poder do público investidor (pessoas, famílias, empresas e até governos), um patrimônio coletivo avaliado em US$ 34,2 trilhões. Dos quais, 54% em poder dos americanos. (SEC/IFF, abril 2002).
Secos & Molhados
Aversão global
Havia aversão ao risco de investidores ricos em receptores pobres. Doravante, a aversão ao risco tende a não mais fazer distinção de países ricos, pobres ou emergentes. Aversão ao risco amoitado em demonstrativos não mais confiáveis de empresas e em relatórios não mais confiáveis das respectivas auditorias.
Omissão geral
A crise moral do tal de mercado, com sua insopitável vocação para a manipulação (sem risco), disfarçada de especulação (com risco), derrama-se pelo sótão de uma autoridade gasosa, a bordo de uma legislação porosa. Xerife do mercado de capitais made in Usa, a SEC americana bem que poderia ensinar o Brasil a administrar nossos presídios de segurança máxima.
Chateação total
E tome recarga de juros e fuzarca de câmbio no Brasil. Não mais por obra do Lula lá, mas por graça da fraude lá a dos que malham o Luís Ignácio Judas da Silva aqui para lucrar aqui e lá.





