‘‘Deixem em paz o Brasil (risco 1.708). Invistam tudo na Colômbia (risco 596).
José Maria de Jesus, americanófobo


Terro Capinanceiro
Quem conhece nossa história financeira sabe que não se pode sequer pensar em ‘‘reestruturação’’ da dívida. Quem propõe isso ou é ignorante ou é irresponsável. Ou simplesmente está fazendo terrorismo em causa própria. Em síntese, é o que diz o presidente do Banco Central, Armínio Fraga.
Com o desconto de praxe: nenhuma autoridade monetária, em qualquer tempo ou lugar, se permite pensar em voz alta sobre qualquer lance de ‘‘reestruturação’’ da dívida. Muito menos emitir aviso prévio sobre isso. A carapuça, no caso, vai para as cabeças ainda não coroadas de presidenciáveis de ocasião. Com sobras dessa elástica carapuça para as mentes ofuscantes de consultores financeiros distressados em Wall Street.
Até tu, Greenspan? Pois no domingo, no World Fórum, em Beaver Creek, O ‘‘senhor dos mercados’’ deixou escapar que ‘‘o problema do Brasil é político’’. Com a intenção de elogiar ‘‘os bons fundamentos da economia brasileira’’, o presidente do Fed disse que ‘‘o nervosismo do mercado em relação ao Brasil nada tem a ver com a economia brasileira: é político’’. Só faltou dizer: é 100% Lula.
O professor Stanley Fischer, ex-vice do FMI e hoje vice do Citigroup, preferiu abrir a caixa de ferramentas, no mesmo Fórum, segundo relato de Sonia Racy: ‘‘As dúvidas estão todas em torno do que Lula vai fazer. Até porque tudo indica que ele já ganhou as eleições de outubro.’’ Cuidem-se Ibope, Datafolha, Sensus and Vox Populi.
Outra sumidade acadêmica, o professor Allan Meltzer não foi menos contundente: ‘‘Alguém como Lula, que admira Fidel e Chávez , não pode ter a mínima confiança dos mercados.’’ No que foi escoltado pelo analista William McNeally: ‘‘Afinal, quem disse que, se o Lula vencer, o Brasil vai virar uma Argentina, não foi o pessoal do mercado, foi o próprio presidente Cardoso.’’
Ora, se gente sabidamente articulada e supostamente bem informada atesta sandices desse calibre, nada a reclamar do obtuso Paul O’Neill, secretário do Tesouro, para quem o Brasil não merece nenhuma colher de xarope do FMI: ‘‘Jogar dinheiro dos contribuintes americanos em cima dos riscos políticos do Brasil não me parece ser uma decisão brilhante.’’
Desde quando direitos de saque ainda não sacados pelo Brasil têm ligação com o ervanário do Tio Sam? Desde quando, em sacando esses direitos, o Brasil deixou de recolocá-los nas reservas do FMI? Será que um secretário do Tesouro ‘‘made in Usa’’ tem o direito de ignorar o que é e como funciona o FMI?
Consumado o estrago na sexta-feira, risco Brasil escalando 1.708 pontos, segundo maior do mundo, Paul O’Neill emitiu nota oficial avisando, a quem interessar possa, que ‘‘são fortes os fundamentos econômicos do Brasil’’. Ah! Uf!


Secos & Molhados

Alarmados
No mais, analistas alarmados produzem cenários alarmistas. No viés eleitoral, replay do filme estreado em 1994 e repassado em 1998, o tal de ‘‘mercado’’ onisciente não deixa por menos, pela terceira vez agora em 2002, como observa o colunista Ricardo Amaral (Valor): 1) Lula já ganhou; 2) Lula dará calote.
Não ajuda
O problema é que o discurso técnico do PT dá a cara política para bater. Discurso feito, até aqui, de ambiguidades e de ambivalências sobre matérias sensíveis. Caso da austeridade fiscal e da administração das dívidas – as quais, se bem administradas, existem para ser simplesmente roladas.
Um truísmo
Afinal, quando é que o PT vai amarrar e publicar um programa de governo – já com 13 anos de atraso? Isso tem levado Lula a dizer coisas do tipo: ‘‘Vamos honrar todos os contratos já existentes, mas a nossa maneira.’’ Um truísmo equivalente a sustentar no bar: as mulheres devem casar; porém, os homens, não.

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