Joelmir Beting
As novas tecnologias da informação fortalecem os especuladores e enfraquecem governos, empresas, mercados e poupadores.
Theodore Grossmann, advogado americano
Manada chipada
Antes, o mercado financeiro tinha câmbio manual de cinco marchas para a realização de cada negócio. Havia tempo para a percepção dos eventos. Havia tempo para o entendimento dos eventos e avaliação das alternativas. Havia tempo para a tomada de decisão por consenso. Havia tempo para a execução de cada movimento assim decidido. Havia tempo para a aferição dos resultados de cada decisão executada.
Em resumo: investidores e operadores dispunham de horas ou dias para mudar ou não de posição. Dava para modular e praticar uma refinada gestão de riscos.
Agora são outros quinhentos por cento. A informação de mercado e de tudo o que direta ou indiretamente afeta o mercado passa a ser trabalhada em tempo real. Literalmente, em velocidade da luz na percepção, decisão, execução e aferição de cada movimento. A boa gestão de riscos desandou de vez. Virou tudo uma geléia real a que se convencionou chamar de aversão ao risco.
Ou para reprisar aqui a tese do que eu chamo de paradoxo tecnológico da informação. Para um mercado que deu de fazer do fator tempo e do fator atenção seus ativos mais escassos ou preciosos, a informação explodiu em velocidade, em quantidade, em diversidade e em intangibilidade. Certo? Mas, por causa disso, a informação despencou em qualidade. Quer dizer: qualidade do processamento dela.
Nem mago de Midas conseguiria hoje processar com qualidade a informação em tempo real e a decisão idem. Há que se responder em um minuto, ao redor do mundo, antes que o tal de mercado online o faça. Resultado: a margem de risco ficou da largura do Oceano Atlântico.
Que fazer? Primeiro: embarcar no efeito manada. Quando todos erram juntos, ninguém perde o emprego. Segundo: para mitigar o risco máximo, o negócio é chutar tudo pelos ares da avaliação ostensivamente exagerada do risco país ou do risco empresa. Terceiro: o efeito manada, mesmo com risco nas alturas, tende a ser auto-realizável, quando direcionado para cenários pessimistas (expectativas de crise provocam a crise que sanciona as expectativas).
Nessa praça de tiroteio digital, investidores e operadores, manipulados pela desinformação em tempo real, trocam o estresse pelo distresse (que é o estresse irreversível). Daí para a abulomania (desordem mental), nova doença do mercado financeiro, é um passo. Ou um clique. Quando não existe problema, inventa-se problema. O verossímil expulsa de campo o verdadeiro.
O Brasil que o diga. Inventaram que o Lula já ganhou pela quarta vez consecutiva e tome manipulação (sem risco) disfarçada de especulação (com risco).
Secos & Molhados
Disco voador
Eis o ecossistema chipado que deu à luz um bilionário negócio da Conchinchina: o dos bancos de investimento e das agências privadas classificadoras de riscos alheios (sentados nos próprios). Cuja qualidade de informação processada é exatamente a mesma do mercado em transe: nenhuma.
Risco político
Não bastasse o turrão Paul ONeill, com sua nova bushada na nuca do Brasil, eis que o provecto Greenspan também pisa no sabonete. Ele disse, domingo, em auditório fechado pero no mucho, que a economia brasileira vai bem; o que vai mal é a democracia brasileira com essa nossa mania de fazer eleições presidenciais a cada quatro anos.
Reação política
Lula e o PT acabam de refazer o discurso, agora em sintonia com o mercado. Sem mistério: quem faz parte do problema tem de fazer parte da solução. Isso vale igualmente para Serra, Ciro e Garotinho. Ou como escreve Gustavo Franco: Nesta crise, os candidatos, sem exceção, mostram mistura variável de desprezo e despreparo em lidar com a nova realidade financeira.
www.joelmirbeting.com.br
[email protected]





