‘‘Toda vitória na Copa é patrimônio coletivo dos excluídos. Eles esperam quatro anos por essa única alegria da vida.’’
Juliano Bastide, sociólogo
Abundância F.C.
O gol de placa de Ronaldo Assis, o gauchinho, na gaveta do veterano Seaman, o latagão, levou a Inglaterra a realizar, a nosso juízo, magnífica partida - para Londres. Com bagagem de chumbo.
Todos os ingleses têm espírito de soldado. Não dá para perder na bola (que eles inventaram) jogando com um homem a mais. Menos ainda para o quebra-cabeça de Felipe Scolari, o único brasileiro com o passo certo no batalhão de 174,5 milhões em ação.
Foi uma vitória heróica, certo? Pois aí é que mora o perigo.
A seleção brasileira, rica de recurso e pobre de decisão, não precisa esguichar adrenalina com endorfina para deitar a mão no penta em 2002. Tal como não precisava da ajuda de todos os deuses da bola para entesourar o tetra em 1994. Temos futebol para vender ou doar, diria o desastrado Lucio.
O problema é que, de Parreira a Felipão, via Zagallo, não perdemos o capricho de se deixar nivelar, sistematicamente, pelo adversário. Qualquer que seja o adversário. Se Inglaterra ou Islândia, tanto faz.
Sem mistério. Na bola como na vida, somos pacientes de uma cilada existencial: a velha síndrome do desperdício, cevada pela nossa cultura da abundância. Desperdício escabroso da abundância de terra, de água, de mata, de energia, de gente, de trabalho, de talento, de sossego, de futebol. Ou como escreveria Caminha a S. M. Fernando Henrique I: ‘‘Cá por estas dadivosas relvas, em se jogando, tudo dá.’’
Mais que isso, todos sabem jogar. Nem é preciso dar nomes e números aos nossos bois ludopédicos. Nos atribulados descaminhos para esta Copa 2002, nossa cultura da abundância não deixou por menos: quatro técnicos em fila indiana convocaram 148 jogadores. Que fartura! E pensar que na Alemanha só havia, em maio, cinco jogadores dignos de vestir a camisa nacional na Copa.
Palavra do Bild, maior diário do país tricampeão. Deitado em berço assim tão abundante, dá para escolher e operar uma seleção de ponta com todo esse rodízio de técnicos mal-humorados e essas cinco dezenas de craques ‘‘tradeables’’? Não dá para adestrar uma única jogada ensaiada. A coisa tem de ser resolvida aí pelo limite da técnica individual e da malícia idem. De resto, técnica reprimida e malícia censurada.
A triste verdade é que técnicos de seleção brasileira não somam. Na melhor das hipóteses, não subtraem. São técnicos excelentes para times pequenos contra equipes de peso. Ocorre que a seleção brasileira sempre foi e será a equipe de peso. A menos que o Brasil prossiga sendo o maior adversário do Brasil. Em Copa do Mundo, não são os outros que ganham da gente. É sempre o Brasil que perde de si mesmo.
Tome-se o potencial de 0 a 10. Para chegar a uma final de Copa, a Alemanha sempre teve de jogar 10 do que sabe. A Itália, 9. A Argentina, 8. Ao Brasil, basta jogar pela cota 6 do que sabe, pode e deve para ganhar todas as taças. Temos jogado abaixo de 5.
Secos & Molhados
Mentirinha
Irmã siamesa do desperdício geral, a Abundância F.C. mascara a ruindade perna-de-pau da gestão cara-de-pau do futebol brasileiro fora do campo. Em plena Idade do Sport biz, ainda não conseguimos sequer produzir e executar um calendário anual. Nem mesmo escrever e respeitar um regulamento decente. Somos o único futebol do mundo que ainda brinca de realizar campeonatos de mentirinha.
Caneladas
Dentro do campo, toda uma geração de técnicos televisivos deu de robotizar e embrutecer o estilo brasileiro de jogar e de ser. Pancada virou ‘‘pegada’’, com mais de 60 faltas por jogo. O dobro da média mundial.
Inventário
O bonito é jogar feio. Exceção de Telê. Como é que é? Sim, Telê perdeu a Copa 82 jogando bonito. Pois jogando feio, perdemos com Zagallo (74), Coutinho (78), Lazzaroni (90) e Zagallo (98). Ou se preferem: jogando feio, só ganhamos em 94. Jogando bonito, fizemos o tri em 58, 62 e 70.

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