Joelmir Beting
À medida que a complexidade aumenta, as declarações precisas perdem relevância e as declarações relevantes perdem precisão.
Lotfi Zadeh, consultora americana
Reféns da bolha
Fazia um ano que a taxa básica de juros não passeava com o crachá esotérico de viés de baixa. Que bicho é esse? Viés de baixa na Selic significa que a taxa piso do sistema financeiro nacional pode ser rebaixada a qualquer momento pela caneta do presidente do Banco Central antes da próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do próprio Banco Central. Reunião já agendada para 16 e 17 de julho.
Ao desencavar o viés de baixa, o Copom deixou claro que o quadro não está claro. Ou seja: estão recriadas as condições de mercado, aqui dentro e lá fora, para a redução da Selic. Mas é preciso esperar alguns dias para que se tenha o estouro da nova bolha cambial. Claro, nunca antes da divulgação da ata da reunião de anteontem.
No calendário dos agentes financeiros, a ata que não desata é mais importante que a reunião. Já está criada até mesmo a figura profissional do analista de ata (do Copom). Afinal, nas entrelinhas da ata pode estar localizado algum lance de milhões não detectado pelos demais analistas. Afinal, a decodificação da ata não é moleza. Parodiando Lotfi Zadeh, nas atas do Copom as declarações precisas não têm relevância e as declarações relevantes não têm precisão.
Em sendo assim, fiquemos combinados até prova em contrário: quem mantém a Selic congelada em 18,50% ao ano é a bolha cambial. Cujo gás hélio é a degringolada do risco Brasil nas mesas ou nos bares de Wall Street. Risco Brasil returbinado pela própria alta dos juros que aumenta a dívida pública contratada para financiar o déficit público (este, de resto, em declínio).
Déficit público ou déficit externo? Well, o déficit externo em conta corrente está em declínio (para menos de 3,8% do PIB). E boa notícia, como é de praxe, não pesa nas decisões do tal de mercado. A bola da vez é a dívida pública atrelada ao déficit público interno. Dívida que a turbulência de maio/junho encareceu em mais R$ 23,4 bilhões na rolagem dos títulos que vencem este ano. E lá se vai para o ralo toda a odiada receita da CPMF.
O que não falta é explicação técnica para essa máquina de enxugar gelo com toalha quente. Como é sabido e deplorado, dólar para o alto carrega os juros na asa direita e os preços na asa esquerda. Na melhor das hipóteses, dólar no alto e em alta não deixa a inflação declinar. Logo, inflação travada em 7,8% nos últimos 12 meses, acima da meta gregoriana de 5,5%, não deixa a Selic baixar. O viés de baixa é feito para usar ou não usar.
Quer dizer: todo o universo econômico verde-amarelo de raiva se descobre, mais uma vez, na posição de reles refém do câmbio, mercado spot tipo bolsa, sobressaltado por vocação e necessidade. Ou como diz Delfim Netto: Tirem o cavalo da chuva. O câmbio flutuante não vai perder a mania de flutuar.
Secos & Molhados
Metafísica 1
A nova bolha cambial tem a ver com o descabido risco Brasil de quatro dígitos ou com a tática de desova do excesso de hedge (proteção) herdado do Juízo Final de 2001? Desova em dois tempos: 1) a gente puxa a cotação para o alto, com ou sem negociação dentro dela; 2) no alto, a gente sai vendendo à frente da manada e recupera pelo menos parte do que foi estocado acima de R$ 2,70.
Metafísica 2
A gente quem? Os grandes bancos nacionais e estrangeiros e respectivos clientes preferenciais. Eles têm poder de indução de mercado pela dimensão da massa crítica disponível. Em mercado flutuante, têm até mesmo a doce prerrogativa de estabelecer projeções do gênero auto-realizáveis.
Metafísica 3
No mais, ligar câmbio com Selic em nome do IPCA é imaginar que o Brasil é governado por mexidas (ou não) na Selic à direita da vírgula. Ou que o IPCA de um dígito é gol de placa da austeridade monetária draculiana e não dos choques de competição, modernização e informação da nova economia real. Que não mais consegue repassar custos para preços.
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