‘‘Sem dúvida, os pobres herdarão a Terra. Sete palmos dela, com toda certeza.’’ Mark Twain (1835-1910), escritor americano


Filantropicalmente
Megainvestidor bilionário e, por causa disso, filântropo chegado a exercícios de filosofia política, o húngaro George Soros ajudou a elevar o risco Brasil no tiroteio financeiro da semana passada. Nas fímbrias de um mercado global que ele não raro manipula e/ou monitora. Mercado, de resto, paranóico por natureza, necessidade ou conveniência.
Para George Soros, o Brasil não tem terceira via: ou vai para o paraíso com Serra ou para o inferno com Lula. Bem, ele disse que não falou nada disso em público. Mas admitiu que teria pensado isso em voz alta ‘‘para um jornalista brasileiro’’ (Clovis Rossi, da Folha de S.Paulo), durante um jantar-bufê do Council of Foreign Relations.
Soros cuidou de reparar o estrago, sustentando que o assunto era de caráter privativo. Rossi rebateu: a) havia testemunhas americanas na conversa; b) ele sabia que falava com jornalista brasileiro; c) conversa com jornalista, diante de terceiros, não é assunto sigiloso para ser tratado em off the record.
O certo é que George Soros, megainvestidor arrependido, ainda confunde manipulação de opinião com especulação de mercado. Ele deplorou o ‘‘uso eleitoral’’ de suas palavras eleitoreiras. E prometeu, sexta-feira, em Londres, não mais falar o que pensa do Brasil, do Serra e do Lula. Não é mais preciso.
O interessante é que George Soros esteve em Londres, no fim de semana, para apresentar à comunidade financeira da City um plano de sua autoria para acabar com a corrupção no Terceiro Mundo. Ou melhor: para inibir corruptores estrangeiros sentados em capitais de empréstimo ou de risco e reprimir corrompidos amoitados em governos e empresas dos países receptores.
O Plano Soros define medidas duras para regulação e auditoria de governos e empresas nas duas pontas da transfusão do dinheiro. Cercado por meia dúzia de jornalistas ingleses, Soros abriu a caixa de ferramentas: ‘‘Em Angola, país ainda hoje devastado pela guerra e pela fome (por sobre um mar de petróleo), a corrupção devora um terço do orçamento nacional.’’
Será que o risco Angola vai explodir por causa disso? Well, George Soros sabe do que fala. Desde 1994, já fez donativos pessoais da ordem de US$ 7,8 bilhões a países, movimentos, programas e instituições desta nossa civilização sem juízo.
Mago do circo financeiro global, o mesmo George Soros tem no currículo e no patrimônio apostas vitoriosas de mercado da ordem de bilhões de dólares contra governos distraídos e bancos centrais ingênuos. Soros deve ter entesourado cerca de US$ 4 bilhões no ataque global sobre a Rússia (1998). Ataque por ele mesmo iniciado ou induzido. Como é que é? Ora, Moscou nunca foi do ramo, certo?
Mas o que dizer da jogada de Soros para cima do Banco da Inglaterra (1993), instituição de segurança máxima? O novo paladino da transparência financeira global embolsou na City, em menos de duas horas, nada menos de US$ 1,2 bilhão.


SECOS & MOLHADOS

Atrasado
O Plano Soros de saneamento moral do sistema financeiro global deixou-se ultrapassar pelo efeito Enron. Governos e mercados já estão trabalhando a quatro mãos para uma futura descarga sanitária nos usos e nos abusos do capital volátil sem fronteira nem bandeira. Começando pelas mesas de Wall Street e não pelos grotões de Angola.
Sob pressão
Bolsas, fundos e bancos, reunidos na semana passada em Nova York, decidiram oferecer ao G-7 um modelo de auto-regulação da ética e da estética desse negócio de trilhões. Cá entre nós: desde a patifaria da Enron, uma cobrança em passeata de poupadores irados e infiéis.
Da aversão
O ‘‘crash’’ moral embutido na quebra física da Enron multiplicou nos poupadores de todos os níveis a clássica ‘‘aversão ao risco’’. A tal ponto que governos, empresas, bancos, fundos e auditorias encaram sua crise mais corrosiva: a da erosão da credibilidade, moeda única do sistema financeiro.

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