‘‘A estabilidade monetária é o fator condicionante. A reativação econômica é o fator condicionado.’’
Pedro Sampaio Malan, ministro da Fazenda


Inflação do real: 141%
Nesta virada do semestre, o Plano Real completa exatamente 100 meses corridos de vida paixão e sorte. Muita sorte. Ou oito anos e quatro meses, contados desde março de 1994, estréia da URV, pau da barraca do programa de estabilização. Ou oito anos completos (96 meses) da conversão da URV em real, moeda sonante substitutiva do cruzeiro que já foi tarde. Muito tarde.
Inventado in extremis para quebrar por decreto a correia de transmissão da inflação inercial (reciclada a cada dia pela indexação formal e informal de todos os preços e contratos da economia desavisada), o Plano Real está cumprindo o que prometeu: ordenar e comboiar o processo de estabilização progressiva na direção da estabilidade sustentável ou duradoura.
Pelos tempos bicudos de hoje, é bom lembrar que o Plano Real nunca foi uma pajelança eleitoreira. A não ser, claro, para os que, até hoje, ignoram a lógica intrínseca do programa. De resto, um programa heterodoxo para desarmar uma inflação, esta assim, heterodoxa. Ou única no mundo.
Inflação paroxística. Sob o doping da indexação ampla, geral e imbecil, camuflada pelo descarte de 12 dígitos da moeda nacional no período, o IGP-DI da FGV acumulou, nos 30 anos antes do real, uma inflação ponta a ponta de 1,1 quatrilhão por cento. Só.
Nestes primeiros oito anos de circulação do real, o IGP-M da FGV, indexador predileto do mercado financeiro, deve fechar, no acumulado ponta a ponta, até 30 de junho, 141,28%. O cálculo, a pedido desta coluna, é da própria FGV. Que estima para junho um IGP-M de 1%, redondinho.
Dentro dele, IPA de 1,40% (no atacado ou na produção) e IPC de 0,35% (no varejo ou no consumo). O primeiro, com peso 60. O segundo, 30. A ponderação se completa com peso 10 para o INCC (construção civil), com projeção de 0,45%.
Nos oito anos do real, o acumulado de 141,28% do IGP-M fica assim destrinchado: 141,98% para o IPA, 138,82% para O IPC e 139,69% para o INCC. Com o grifo: os três índices fecham o longo período em convergência quase total.
Até 1998, o IPA trafegou abaixo do IPC. Com a abertura do câmbio, em 1999, deu de navegar bem acima. Em 1999, IPA de 29,34% versus IPC de 8,83%. Ou seja: não houve repasse dos custos cambiais da produção para os preços finais do consumo. Em 2000, de novo em convergência, IPA de 12,22% versus IPC de 6,17%. Em 2001, 11,88% contra 7,75%. Este ano, de janeiro a junho, IPA de 2,66%, já abaixo do IPC de 2,84%.
Esse rosário de índices carrega no fio da meada um detalhe político: os preços públicos, com peso de aproximadamente um quarto nos índices da FGV, responderam por mais de um terço da inflação do real. Que tal? Sim, ainda hoje a inflação do governo severo continua maior que a inflação do mercado livre. O que significa dizer que a estabilização do real tem sido mais consistente do que dizem os ministros ou o presidente. Só falta avisar a Selic.

Secos & Molhados
Tarifação
A caneta das tarifas públicas lava as mãos ou as penas. Culpa da defasagem tarifária cavada antes do real. Culpa da correção tarifária antes da privatização. Culpa da recarga tarifária pós-privatização. Em especial, das tarifas públicas e/ou privadas ainda hoje indexadas (ou dolarizadas) em contrato.
Serviços
Nos serviços privados, de consumo doméstico, tipo eletricista, advogado, dentista, escola, aluguel ou plano de saúde, a estabilização do real pagou preço alto nos três primeiros anos. Era tudo na base do pega ou larga, sem opção. Ou sem importação. Esta, de caráter corretivo ou punitivo.
Até quando?
Sim, só falta avisar o Copom. Não é a Selic que segura a inflação. Desde quando juros ainda no alto ou em alta, no crédito bancário para produção, giro e consumo, amaina o apetite da inflação de custos (financeiros)? Nem sequer a gula da inflação de demanda - travada, como nunca antes, pela modernização das empresas e pela competição nos mercados.

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