Joelmir Beting
A maior injustiça do mundo é afirmar que todos os patifes e ladrões são políticos. Alguns, não.
Millôr Fernandes, jornalista e escritor
Que tal o platino?
Seguinte: o dólar passa a valer 3,50 pesos e cada dólar contábil converte-se em nova moeda argentina, o platino.
Abandona-se o peso sem peso e o platino passa a funcionar, de junho a dezembro, como moeda escritural para todos os preços e como reindexador único para todos os contratos.
Sim, clonagem azul-celeste da URV verde-amarela. Afinal, eles já copiaram nossa CPMF, pois não? No contrapé da baixa estima coletiva, bem que poderiam importar também nossa URV pelo desvão do orgulho nacional erodido. Seria uma dolarização paroxística, por decreto. Em 1º de janeiro de 2003, o platino teria livre curso como moeda nacional. Tal como fizemos com o real.
O importante é que nove em cada dez argentinos têm memória (e saudade) da dolarização paritária e conversível. Ruim com ela, pior sem ela. Alguns argentinólogos de passagem, também. O professor Jeffrey Sachs, de Harvard, sustenta que a redolarização aberta ou oculta, nesta altura do calendário, se tornou um mal necessário.
Perito em economia internacional, Jeffrey Sachs diz que daria preferência a uma saída ainda mais exótica: a invenção de uma moeda única para o Mercosul, atrelada ao dólar americano. O que dispensaria a longa gestação de políticas de convergência macroeconômica no bloco. Seria uma âncora monetária capaz de ressuscitar a confiança da população argentina na restauração nacional, sem atritos cambiais com o Brasil.
Quer dizer: confiança, não no governo, mas no próprio dólar.
Tanto mais, se a comunidade financeira internacional ousar a costura diplomática de uma blindagem técnica: a da criação de um fundo para seguro de depósitos bancários. E com a Casa Branca topando rachar com a Casa Rosada a receita da tal de senhoriagem (vixe!). Que bicho é esse? Trata-se do rendimento produzido pela redolarização, que seria apropriado pelos Estados Unidos, emissores do dólar no lugar do peso.
Argentinólogo não menos notável, o professor Rudiger Dornbusch, do MIT, emite um parecer cético: a) ajudando ou não, o FMI tem sido mais um problema do que uma solução; b) uma nova âncora cambial protelaria para o Dia de são Nunca o ajuste do setor público, historicamente permissivo e perdulário; c) a pajelança monetária não teria combustível para alavancar a retomada do consumo, da produção e do emprego.
Cáustico como sempre, Dornbusch endossa a truculência diplomática do presidente uruguaio e assina: A ladroeira é tão viscosa que já se admite a volta de Menem. Se ele é um criminoso ou não, é uma questão em aberto. Mas este é o pior momento para se reinstalar na presidência um reles dançarino de tango.
Secos & Molhados
Quem diria?
Um passo à frente da moeda única regional do colega Jeffrey Sachs, o professor Dornbusch propõe, sin embargo, a importação de técnicos estrangeiros para modular e executar políticas fiscais e monetárias. Claro, sem crachá do FMI e muito menos o do Departamento do Tesouro americano.
Como é que é?
Seriam profissionais de mercado, peritos em finanças públicas. Não que a Argentina não tenha quadros competentes nem acadêmicos disponíveis. Para Dornbusch, o problema está na credibilidade pública literalmente zerada dos políticos argentinos e respectivos tecnocratas.
Quem seria?
Por exclusão, haveria um salvador da pátria, se devidamente ungido pelas urnas? Dornbusch diz que sim: Seria o ex-ministro Ricardo Lopez Murphy, expulso do governo pelo rolo compressor dos governadores irados. E não se pode realizar exercícios de austeridade fiscal quando o regime de governabilidade já se encontra a um passo da ruptura.





