‘‘No banimento da fome, não é preciso haver a multiplicação bíblica dos pães, dos peixes e do vinho. Basta reparti-los.’’
Frei Betto, escritor


Da fome alheia - 2
Pela ordem: foie gras com kiwi no prato de entrada, lagosta ao vinagrete no segundo serviço e ganso recheado ou risoto de courgette nas opções do terceiro. De sobremesa, tortas, frutas e queijos. Na carta de vinhos, brancos franceses e tintos toscanos. Escoltados pela água mineral San Pellegrino e pelo amaro siciliano Averna.
Nada mal para o almoço de abertura, segunda-feira, da Cúpula Mundial da Alimentação, servido a 3.110 delegados de 183 países com crachá da entidade anfitriã, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). A megaconferência ocorre, a cada seis anos, na sede mundial da instituição, caprichosamente localizada em Roma, referência da gastronomia universal.
O cardápio do rega-bofe escorreu pelo site do The New York Times. Constrangido, o diretor-geral da FAO, o diplomata Jacques Diouf, suspirou fundo: ‘‘A cúpula burocrática não abre mão da extravagância em nome da confraternização. Mas o importante, em eventos do gênero, não é o que se come, mas o que se fala.’’
Pois, de conversa fiada, os famintos de meio mundo andam lotados pela altura da traquéia. O futuro deles é hoje. Amanhã já é tarde demais.
Foi o que servimos na coluna de ontem: é a estupidez das decisões e não a escassez dos recursos que faz o DNA da exclusão alimentar de 860 milhões de criaturas humanas. Ou de um terráqueo em cada sete. As limitações políticas devem continuar sabotando ou retardando as resoluções técnicas – já na idade de uma engenharia genética que começa a afrontar os códigos divinos da Vida.
Ontem, por exemplo, no Dia Internacional Contra o Trabalho Infantil, relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) matou a cobra e mostrou o pau do cabo de enxada: 72% do trabalho infantil flagrado em todo o mundo está alocado na economia rural de mercado e/ou de mera subsistência familiar. Pois as duras lides do campo exigem resistência física digna de fuzileiros embarcados. Não é batente de sol a sol para crianças nem mesmo para mulheres. Já vivi isso.
Em troca do quê? De novo a FAO: A suposta ‘‘vantagem comparativa’’ do trabalho infantil aviltado nas lavouras e nos rebanhos não cobre um milionésimo das perdas que as barreiras comerciais dos países ricos impõem aos embarques agrícolas dos países pobres. Uma blindagem tarifária agora travestida de salvaguardas sanitárias, ambientais e sociais.
Estima-se que o neoprotecionismo (fantasiado de neoliberalismo), em eclosão nos dois lados do Atlântico Norte, tem massa crítica para deprimir em até US$ 12 bilhões por ano a fatura em bloco já atrofiada de 54 países não desenvolvidos. Quase todos ainda no estágio da América rural do século 18.


Secos & Molhados

Pé no tubo
Pois são exatamente as barreiras tarifárias, de resto antigas, que empobrecem econômica e tecnologicamente a economia agrária dos pobres. Que não têm como aumentar a eficiência produtiva nem como promover a sustentabilidade ambiental, sanitária e social da terra e de sua gente.
Cinismo
Levantar novas barreiras comerciais em nome dessas salvaguardas oblíquas (incluído o trabalho infantil) é de um cinismo atroz. São decisões que bloqueiam a produção sobretaxada dos pobres e encalham a produção incentivada dos ricos. Fechando a roda, o encalhe dos segundos derruba as cotações mundiais dos primeiros.
Parasitose
De 1997 a 2001, queda real de 32% no valor médio das commodities agrícolas dentro de mercados ainda hoje estupidamente atravessados. Ou seja: na fartura, os preços caem para o agricultor (sem subsídio), mas não, necessariamente, para o consumidor. Na penúria, os preços sobem para o consumidor, mas não, necessariamente, para o agricultor (sem barganha). E cosi la nave và, dizem os romanos de Fellini.

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