‘‘Metade da Humanidade passa fome. A outra metade faz regime.’’ Donizetti Tavares de Lima (1882-1961), padre de Tambaú (SP)


Da fome alheia
Roma é endereço adequado para discutir a fome no mundo. A capital italiana hospeda enorme veriedade de slow-food para 13 milhões de visitantes por ano. O Vecchia Roma é meu predileto. A dica me foi passada por Araújo Neto. O Da Bolognese, indicado por Paulo Francis, chega junto. No Trastevere, uso e abuso do Galeasi. No fast-food, nada melhor que os da pizza a taglio.
Onde teriam jantado, ontem, os delegados dos 183 países da FAO? A cada seis anos, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, agência da ONU, tenta tirar leite de pedra: a) dramatizar o inventário global da fome que devora um terráqueo em cada sete; b) convocar países ricos, pobres e remediados para a resolução em bloco desse desafio telúrico.
No relatório divulgado ontem, na primeira sessão dos trabalhos técnicos, está escrito nas entrelinhas uma obviedade histórica: a desnutrição endêmica de 860 milhões de pessoas em todo o mundo resulta menos da escassez dos recursos e mais da insensatez das decisões. Afinal, estamos a bordo da civilização do conhecimento, mas não ainda da sabedoria. A sabedoria é o conhecimento temperado pelo juízo. Cadê o juízo do bicho-homem?
Os países ricos, donos da fartura universal, permanecem indiferentes ao flagelo bíblico - também presente em bolsões dentro das próprias fronteiras. Eles preferem continuar sentados em gigantescos estoques subsidiados e encalhados, ‘‘reguladores de mercados’’. Entre outros, os estoques do queijo rockefort de tipo trato de José Bové, paladino em causa própria.
O relatório da FAO revela que a ajuda alimentar de 30 países ricos para 78 países pobres declinou de US$ 15 bilhões, em 1988, para US$ 11 bilhões, em 2001. Ajuda traduzida por doação de alimentos em estados de emergência suprema (ou televisiva) e por prestação de créditos e serviços à produção nativa de subsistência meramente biológica.
Com o detalhe patético: cada dólar injetado na segurança alimentar mínima de populações inteiras daria um retorno de mercado (aos próprios países doadores) de US$ 12 - sob a forma de importação de bens e serviços demandados por gente nutrida, equipada para o estudo e para o trabalho.
Como desgraça pouca é bobagem, o estudo da FAO volta a dimensionar o coeficiente de desperdício de recursos escassos por países pobres empenhados em gastar mais com canhão do que com pão. Até porque a geopolítica dos poderosos investe mais em ajuda militar do que em socorro alimentar. Na África Negra, pior: a fome ainda é a principal arma da rosca sem-fim das guerras tribais pós-coloniais. De resto, nas barbas brancas do Conselho de Segurança da ONU.
Afinal, os famintos não fazem revolução. Os famintos, simplesmente, morrem de fome. Assinado: Madre Tereza de Calcutá.


Secos & Molhados

Falta muito
Modelos produzidos por meia centena de países remediados, Brasil no meio, demonstram que não basta fazer a reforma agrária sem o guarda-chuva da reforma agrícola. Esta, condicionante daquela, feita de pesquisa, extensão, pessoal, logística, crédito, seguro, bolsa e parceria em cada cadeia de valor do chamado agronegócio.
Mata-burros
Economia rural potencialmente mais competitiva do mundo, a brasileira ainda resfolega no crédito curto e caro e na carga fiscal asinina - da ordem de 31,2% do preço final dos alimentos industrializados. Temas indigestos incluídos no cardápio do Congresso Brasileiro de Agribusiness, que começa hoje em São Paulo.
Cenário 2010
O encontro vai discutir diretrizes para um Plano Estratégico 2003/2010.
Documento que será depositado pela Associação Brasileira de Agribusiness (Abag) no colo de cada presidenciável de ocasião. Alguns dos quais nunca pegaram um capim barba-de-bode na mão.

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