‘‘Não é que certos analistas não prevejam o futuro. O que eles ainda não enxergam é o passado.’’
Michel Batlouni, cardiologista
Haja coração!
Nesta semana que termina, aumento de 27%, em todo o Brasil, das vendas do Izordil. Nada menos de 66,4% dos compradores identificaram-se como investidores. Um deles, José Maria de Jesus, dentista em Niterói, resumiu o fenômeno: ‘‘No mercado financeiro, a lei da oferta e da procura acaba de entregar a bola quadrada à lei do enfarte e da loucura.’’
O problema é que esse mercado, ciclotímico por natureza e neurotizante por conveniência, está passando da especulação, que é do ramo, para a manipulação, que é um terror. Os especuladores encaram riscos diversos. Os manipuladores não correm risco algum. Exceto, quem sabe no futuro, o risco de justificar uma legislação purgativa, com enquadramento policial por perdas materiais e danos morais.
Até lá, o exercício da manipulação em causa própria, vestida de ‘‘volatilidade especulativa’’, que é do jogo, continuará dando as cartas no mercado financeiro, agora sem fronteira nem bandeira. Com a ressalva: a manipulação de mercado não é para quem quer. É só para quem sabe e para quem pode manipular.
Duas são as britadeiras eletrônicas da manipulação de mercado: 1) a velocidade de produção e consumo da informação; 2) o terrorismo nos usos e nos abusos da própria. Ambas em processo continuado de refertilização mútua. Por uma simples e boa razão de fundo, digamos, tecnológico: a informação financeira explodiu em velocidade, em diversidade e em intangibilidade. Vai daí que o processamento dela veio abaixo em qualidade.
Antes, operadores e investidores tinham pelo menos um dia para recepcionar, checar e sopesar cada informação de mercado.
Por tabela, pelo menos um dia para tomar decisão, fazer posição e inventariar a operação. A análise de cada movimento não raro se permitia ao luxo de um consenso de meia dúzia de consultas ou de cabeças. O ‘‘efeito manada’’ era meramente bissexto.
Agora, são outros quinhentos e tanto por cento. A percepção, a decisão, a execução e a aferição de cada movimento têm de ser encadeadas em um minuto - dentro de um mercado não mais estanque e que dá a volta ao mundo em apenas um segundo.
Nessa paranóia chipada, fica fácil manipular e não apenas especular. Sobretudo quando a mídia coisa-preta, inocente útil do negócio, igualmente desfruta do poder de fazer terrorismo em tempo real. Que o diga a infantaria da manipulação global - a de bancos e agências de classificação de riscos alheios (sentados nos próprios).
A divulgação de relatórios e respectivos ‘‘ratings’’ colocou-se a serviço do negócio do milênio: a do ‘‘insider information’’ para certo círculo fechado, com crachá de ‘‘transparência de mercado’’. Dentro da lei e da ordem, nas barbas das autoridades regulatórias, manipula-se com títulos, moedas e nações. Ou como diz o Galvão: haja coração!
Secos & Molhados
Manada 1
O novo ecossistema financeiro, que não faz distinção darwiniana entre mercados opulentos e/ou mercados emergentes, favorece o efeito manada dos operadores e dos investidores. Se a informação ocorre em tempo real e a decisão idem, para onde a primeira vaca vai, toda a boiada vai atrás.
Manada 2
Para os investidores, o efeito manada tem um único destino: o despenhadeiro. Culpa-se o governo e fim de papo. No Brasil, tanto mais. Muda-se a regra do jogo em pleno jogo, diriam em coro os aplicadores em LFTs. Pois num mercado a futuro, que desde 1986 brinca de violar contratos, até o passado já se tornou imprevisível.
Manada 3
Para os operadores, analistas e consultores, o efeito manada está em afinar apostas na mesma direção e no mesmo compasso. Afinal, quando encharcado de pessimismo, o efeito manada é auto-realizável. Mas se a bola de cristal dá com os bolsos n’água, nenhum problema: ninguém perde o prestígio (nem o emprego) quando se erra em bloco.

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