Joelmir Beting
O que aconteceu com o futebol na América Latina? Bem, o que se faz no Brasil não deve ser copiado.
The Economist (4/6/2002), revista inglesa
Pisamos na bola
A ruindade fora de campo acabou contaminando a qualidade dentro dele. Feito de talento e beleza, pela própria natureza, o futebol brasileiro perdeu o respeito do mundo e não mais se respeita no Brasil. O gigante da bola ficou sem a alma do jogo.
A sentença é da revista The Economist, em edição especial dedicada, esta semana, aos negócios lícitos e/ou escusos que gravitam ao redor do esporte mais popular do mundo - agora em exposição quadrienal na Copa da Coréia e do Japão. Para os analistas ingleses, a bagunça reinante no futebol brasileiro, com sobras para o futebol argentino, já suprimiu metade da expressão técnica das equipes nacionais. Quase todas, em regime falimentar.
Certo, fora do campo o futebol vai mal das pernas até mesmo na Inglaterra, como vimos ontem nesta coluna. A diferença, como grifa o diretor-técnico do Real Madri, o argentino Jorge Valdano, campeão mundial em 1986, é que ingleses, espanhóis, alemães, franceses e italianos pagam tributo ao próprio sucesso de mercado: o da inflação dos craques e o da recente quebradeira em cascata de detentores dos milionários direitos de televisão.
Nas bolas murchas do Mercosul onde brasileiros, uruguaios e argentinos, em bloco, guardam o tesouro de metade dos 16 títulos mundiais já disputados , o problema é de má gestão de clubes e entidades, com direito a rasteiras escancaradas de corrupção. Dignas de CPIs inconsequentes, no caso brasileiro.
A revista relata a decadência física dos nossos estádios, onde os jogadores não dispõem de vestiários nem de gramados decentes. E onde os torcedores não têm acomodação adequada, desfalcados de acesso, conforto, segurança e horários civilizados.
A bilheteria vem declinando ano a ano. Não tem passado, no campeonato nacional, da média de 12.452 ingressos por jogo. Contra 17.380 do último campeonato argentino. Ou de 44.280 na Inglaterra, de 48.965 na Itália, de 52.764 na Espanha. Os calendários não existem e os regulamentos se perdem na galhofa.
Ano passado, em São Paulo, o craque brasileiro do Real Madri e da seleção, Roberto Carlos, me ponderou o seguinte: 1) nossos gramados são de gado e não de gente; 2) apanhando da bola rolando, os jogadores têm de dominar a dita-cuja sem arriscar passes de primeira e remates de longe; 3) nessa operação, dá-se tempo ao adversário que chega rachando na bola ou balim; 4) assim favorecida, a pancada virou sinônimo de pegada nos elogios do técnico, do torcedor e da crítica; 5) neurotizados, exibimos mais de 60 faltas por jogo contra menos de 30 lá fora; 6) fechando a roda, técnicos, cartolas e juízes vestem a armadura do futebol-força no lugar do futebol-arte.
Futebol-força? No pós-guerra, o Brasil ganhou três Copas do Mundo jogando bonito e apenas uma jogando feio (1994). E perdeu seis Copas jogando na força e só duas jogando na arte (1950 e 1982). Nesta Copa 2002, a tática volta a sufocar a técnica. Ah! Ainda dá para ganhar sofrido mais uma vez jogando feio. Em lampejos isolados.
Secos & Molhados
Diáspora
Sem saber promover nem faturar, nossos clubes sobrevivem da loteria do passe de jovens talentos negociados com o futebol-empresa da Europa e até do Japão. Onde os astros do nosso export-drive ludopédico acabam catequisados pelo jogo mecanicista feito mais de gráfico do que de talento. Renivelados por baixo.
Sem opção
Exportar ou morrer? A exortação de FHC é carapuça para o futebol brasileiro. Que deu de exportar a maioria dos garotos na passarela das seleções sub-21 e sub-17. Ou na convocação de 148 jogadores valorizáveis para esta Copa 2002. Vai para o Guiness Book.
Sem recibo
A exportação de talentos em bruto não tem sido um negócio limpo. Sobre ser atravessado ou propinado, carrega na bagagem o desvão e a fraude - incluída até mesmo a falsificação de passaportes. Está na The Economist.
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