‘‘Cartolas do futebol também são filhos de Deus. Mas Ele nunca dispensa as provas do DNA.’’
Washington Olivetto, publicitário



Bola na Bolsa
Patrimônio corporativo da ‘‘holding’’ IFI, da família Agnelli, controladora do Grupo Fiat, a Juventus ensaia comprar da prefeitura de Turim o moderno estádio Delle Alpi. O projeto envolve investimentos de US$ 230 milhões porque vai dar carona, no entorno do estádio, a centro de lazer e a shopping center de padrão americano – ainda inexistente na Itália.
O empreendimento será alocado ao clube Juventus, campeão de 2001, empresa de capital aberto com ações negociadas na Bolsa de Milão. A captação do novo aporte de capital no mercado de ações, em pelo menos um quarto da subscrição pretendida, é esperada do bolso dos tifosi espalhados por toda a Itália.
Eis aí um lance de efeito do Futebol S.A., administrado em bases necessariamente profissionais e transparentes. Com o detalhe: 83% das receitas da Juventus, la Vecchia Signora, têm origem em contratos de patrocínio, em acordos de parceria, em direitos de televisão (e rádio) e em negócios de licenciamento e merchandising. Esse encaixe total cobre, com gordas sobras de fim de mês, a milionária folha de pagamentos do clube.
Dá para ser sócio de um negócio como esse? A Juventus só abriu o capital em fevereiro deste ano (a Lazio, a Roma e a Inter, desde 1998). Mas descontou o atraso: a captação inicial alcançou US$ 129 milhões, o dobro do que estaria orçado o futuro estádio paulistano do Corinthians, ainda sonho de uma noite de outono.
Desde abril, valorização em bolsa de 17%, efeito do novo título nacional conquistado em maio.
Ocorre que as ações peboleiras de 33 clubes europeus negociados em bolsas estão em queda. O D. Jones Stoxx Football Index despencou do pico de 524 pontos, em junho de 1997, para 142 pontos no mês passado. De março de 2000, estouro da bolha global, a maio de 2002, tempo de reacomodação do mercado acionário em meio mundo, as perdas para os acionistas anônimos acumularam 57% no pioneiro Manchester, 43% no Arsenal, 31% no Ajax holandês, 41% no Borussia alemão, 36% no Sporting, 45% no Porto, 58% na Roma e 63% na Lazio.
O mar está para moréia. Na Inglaterra, paradigma do futebol-empresa, a consultoria Deloitte Touche apurou que, dos 81 clubes em atividade na Liga Nacional, apenas 19 fecharam 2001 no azul. O desvio de rota principal estaria na sobrevalorização salarial dos trabalhadores de calção e chuteiras. Sem a contrapartida, na maioria dos casos, da venda do ‘‘passe’’ de algum estrelado.
Com três complicadores de sobremesa: 1) a renda das bilheterias, geralmente com venda antecipada, não mais consegue dar conta do recado; 2) não há promotores nem televisores suficientes para todos; 3) a pirataria, praga universal, desvia quase metade das receitas com produtos licenciados.


Secos & Molhados

Cartolice - Crise de gestão? Em parte, sim. A cartolagem despreparada é antiga e não é invenção brasileira. O advento do futebol-empresa é que coloca a ruindade de gestão no palco. É o que descreve a matéria de capa da revista Fortune: um ‘‘mess of business’’ de um ‘‘football madness’’ (assunto aqui tratado terça-feira em ‘‘Quadratura da bola’’).
Tem limites - A profissionalização acelerada e sem alternativa do secular ‘‘esporte bretão’’ estabelece limites de mercado. Não há espaço para tantos clubes nem para tantos jogos ou para tantos torneios. É o fim da era do calendário tipo ‘‘enchimento de lingüiça caça-niquel’’. Acabou o niquel. Questão agora examinada, também em matéria de capa, pela revista The Economist.
E o Brasil? - A pensata sobre o fenômeno econômico da bola, pela mídia especializada em ‘‘big business’’, tem a ver com esta nova edição da Copa do Mundo. Falta encaixar nesse cenário a sofrida condição do futebol brasileiro, maior perna-de-pau de paletó e gravata. Amanhã, nesta coluna.
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