‘‘O futebol é uma atividade econômica poderosa e sem fronteira. Mas a má gestão de seus negócios coloca seu futuro em risco.’’
Elena Landau, economista e consultora


Bola na trave
Aos 139 anos de idade, o futebol é o único acontecimento global capaz de, a um só tempo, chumbar a atenção no televisor de até 20% da população mundial. É o que se espera no jogo final da Copa 2002, audiência ao vivo de 1,2 bilhão de terráqueos em 197 países. A superposição de audiência, nos 64 jogos desta maratona de junho, ensaia totalizar 41 bilhões de pares de olhos. Na Copa de 98, na França, 33 bilhões.
Fenômeno televisivo mais extenso e profundo que qualquer outro evento do planeta sem juízo, o futebol passa a ser tratado como megamercado da crescente indústria do entretenimento. Uma indústria que vai do turismo de lazer ao turismo de negócio, passando pelo show biz, pelo sport biz, pela cultura e, mais recentemente, pelo consumo de bens e serviços ligados à preservação e/ou manutenção da saúde.
A hospedagem compartilhada da Copa exigiu da Coréia e do Japão investimentos de US$ 6,2 bilhões. Não é promoção para quem quer; só para quem sabe e para quem pode.
O Brasil, por exemplo, não poderia nem saberia hospedar a Copa 2006, já alocada à Alemanha. Não dispomos de estádios dignos do nome em capacidade, conforto, logística e segurança. Nem sequer de gramados transitáveis nos estádios existentes. São campos de gado que subtraem e deseducam a técnica superior do jogador brasileiro.
O setor público não pode nem deve investir nisso. O máximo que dele se espera é o exercício de um poder regulador e arbitral nos tratos da bola. Incluída a cobrança de tributos e encargos de clubes que se recusam a funcionar como empresas.
E o setor privado? Vestido de cartolagem ridícula, não tem competência nem mesmo para elaborar e respeitar calendários e regulamentos. Este ano, inventamos decisão de campeonato por cartão amarelo e acabamos de atribuir ao São Paulo F.C. o título de supercampeão de um campeonato que não houve.
Estamos chutando para o brejo da descrença e da corrupção nossa fatia numa atividade econômica que deve movimentar, este ano, em todo o mundo, entre negócios diretos e indiretos, perto de US$ 265 bilhões, nos cálculos da empresa de consultoria KPMG. Sem contar as rasteiras da pirataria nos materiais esportivos e nas licenças de merchandising. Ou as botinadas da sonegação na coleta de encargos, tributos, bilheterias e direitos de arena.
A tal de ‘‘football madness’’ ou ‘‘mess of a business’’, capa desta semana da revista Fortune. Que destaca denúncias de corrupção a céu aberto no comando suíço da Fifa. Mas não a ponto de afugentar um pool de patrocinadores e de parceiros de peso.
Caso da Adidas. Fábrica de licenças e não de produtos, ela pagou à Fifa, em ‘‘cash’’, por cima da Nike, US$ 127 milhões pelo direito de vestir 65 árbitros e 268 gandulas e de agregar à grife o emblema da Copa a 708 produtos licenciados.


Secos & Molhados

Coisa séria - Fenômeno sociológico sem paralelo, o futebol começa a despertar o interesse científico de cientistas sociais em meio mundo. A coluna recomenda a leitura do melhor trabalho até agora publicado: Sociologia do Futebol, do sociólogo inglês Richard Giulianotti. Lançado esta semana, em português, pela Nova Alexandria ([email protected]).
Megamercado - A dimensão, o conteúdo e o potencial do futebol na economia e na sociedade fazem o eixo de outro livro taludo introduzido em Londres no mês passado: Winners and Losers: The Business Strategy of Football, do economista Stefan Szymanski (Imperial College).
Está na bolsa - Inventores do futebol, os ingleses inventaram o Clube S.A., com ações negociadas em bolsa. Essa titularização dos distintivos da bola na City começou em 1996, decolagem do ‘‘boom’’ acionário nos dois lados do Atlântico Norte. Essa bolha já furou e a bola em bolsa murchou. Amanhã, nesta coluna.
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