Joelmir Beting
Pela primeira vez na História, conseguiram roubar os turcos. José Maria de Jesus, torcedor canarinho
Quadratura da bola
O Uruguai tem um jogador de futebol para cada 145 mil habitantes, informa o Relatório 2001 da Fifa. O Brasil, um jogador registrado para cada 7,5 milhões de habitantes. Nesta pátria do futebol, tetracampeão mundial, temos pouca gente vivendo da bola. Em termos relativos, só estamos à frente dos Estados Unidos e da China.
A densidade americana é de 1 peboleiro para 12,1 milhões de habitantes. Não é para menos: o futebol é hobby feminino, ainda chamado de soccer (velho apelido de estivador inglês). No planeta China, igualmente dominado pelo futebol feminino, a coisa vai obviamente para 54,8 milhões de habitantes para cada par de chuteiras. Sem mistério. Um em cada cinco terráqueos é chinês.
Parece que o Brasil tem chance contra a China no segundo jogo da Copa, madrugada de sábado. Para variar, temos vasta galeria de craques entre os 241 mil profissionais das federações estaduais. Mas, também para variar, fizemos da solução um problema. A bordo de quatro técnicos em quatro anos, convocamos 148 craques desde a Copa doada à França em 1998. Dos quais, 98 pela primeira vez fardados de amarelo. Renovação é apelido.
O problema está justamente na síndrome do desperdício que acompanha, há meio milênio, nossa cultura da abundância. Em nome da generosidade do recurso, desperdiçamos terra, água, mata, trabalho, gente e bola. Dá para formar um time de ponta com 148 convocados para 85 jogos antes da nova Copa?
Abundância de craques ou vitrine marota do nosso export-drive ludopédico? Não mais se convoca para disputar títulos. Só para valorizar financeiramente jogadores, técnicos e cartolas.
Cartolas, eis a questão. A síndrome do desperdício começa pela gestão incompetente (e desonesta) do futebol fora de campo.
Com o duplo desconto: 1) a incompetência de gestão igualmente estiola a maioria de nossas instituições; 2) a improbidade administrativa no futebol é uma praga universal.
Está na matéria de capa da revista Fortune, desta semana: Football Madness - The worlds most popular sport is a mess of a business. Tradução ao pé da bola: futebol loucura, o esporte mais popular do mundo é uma bagunça de negócio. Ou uma gandaia de gestão.
Que o diga a reeleição do suíço Joseph Blatter para mais um lustro no comando da Fifa. Ele está sob forte metralha de acusações cabeludas por malversação de recursos e pôr mão de gato em contratos de patrocínio ou parceria no valor de centenas de milhões de dólares. O dossiê vermelho é assinado por Michel Zen-Ruffinen, secretário-geral da própria Fifa.
Secos & Molhados
Global F.C.
De resto, inventado pelos ingleses no final do século 19, o futebol consolida-se, nesta largada do século 21, como primeira e única modalidade esportiva de alcance universal. Um esporte global antes da globalização. A Fifa agrupa 197 países. Contra 184 do Comitê Olímpico Internacional. Ou 192 da ONU.
Para poucos
Nos Jogos Olímpicos, a fábrica de medalhas é de quem tem força econômica e qualidade de vida. Ou de governos autoritários e longevos que fazem do pódio a qualquer custo mera peça de propaganda ideológica. Países pobres ou remediados não têm vez no ranking do bronze, da prata e do ouro.
Para todos
Bem ao contrário, a Copa do Mundo viola a lógica da potência extracampo, escreve o ensaísta Roberto Pompeu de Toledo (Veja, 15/5/2002): A Copa nivela nações deserdadas com nações privilegiadas. Ela chega onde a ONU não consegue chegar. Nem os Estados Unidos. Desenha-se, nesta época, a utopia de um mundo realmente multipolar.





