Joelmir Beting
Máquina caprichosa é o cérebro humano. Ele começa a trabalhar quando a gente dorme e pára de funcionar quando a gente trabalha. Robert Frost (1874-1963), poeta americano
Burrice nacional
Pesquisa mensal do Banco Central constata o agravamento de uma anomalia financeira que já dura uma década e meia: o aumento da inadimplência nos créditos bancários a pessoas físicas. Ainda que créditos rigorosamente seletivos, a coisa escalou, em abril, para 15,1% na média do Brasil.
Nenhuma novidade, igualmente, no diagnóstico equivocado da autoridade monetária, reprisado no informe de terça-feira: tamanha inadimplência inviabiliza a redução dos juros pelos bancos cada vez mais sólidos e cada vez mais líquidos.
Lógica bancária leonina: as perdas com créditos sem retorno têm de ser cobertas (com sobras) pelos mutuários fiéis e pontuais. Afinal, nenhum banco tem para conceder ou relaxar a ninguém um só centavo que não seja tirado de alguém.
O problema está no equívoco do diagnóstico da inadimplência sem opção (não confundir com o calote de ocasião). Não é a inadimplência que provoca os juros altos em prazos curtos. São os juros altos em prazos curtos que provocam a inadimplência. E até mesmo justificam moralmente a desenvoltura dos caloteiros.
Ou por outra: não é a febre da inadimplência que provoca a infecção dos créditos (podres). É a infecção dos créditos da usura que provoca a febre da inadimplência - juraria Hipocrates.
Ora, no momento em que dois terços dos brasileiros economicamente ativos têm de quebrar o galho no emprego informal ou no trabalho precário, com PIB chorando na rampa de uma expansão média anual de 2,1% no longo curso dos últimos 12 anos (1990 a 2001), é de causar labirintite cívica a indiferença bovina com que governantes e governados aceitam juros de 159,7% ao ano no cheque especial. Ou de 137% ao ano no crediário de um fogão a gás ou de um televisor novo para ver a bola murcha do Brasil na Copa.
Dá para apostar em crescimento sustentado do PIB, acima de 5% ao ano (gatilho para a expansão do emprego), com crédito bancário tão curto e tão caro, ainda abaixo de 30% do mesmo PIB? No tigre Coréia, único emergente que deu certo, a taxa básica é de 0,2% ao ano e a oferta de crédito ao setor produtivo permanece acima de 120% do PIB (com renda per capita de US$ 16.235).
Pois, aqui na anta Brasil, há quem prefira espichar ainda mais o círculo vicioso do diagnóstico equivocado. Outro dia, um consultor de renome sustentou em seminário que os juros só vão baixar quando os riscos da inadimplência baixarem. E a inadimplência, segundo ele, só vai baixar quando a economia voltar a crescer, fertilizando empregos melhores com salários maiores. Só não explicou como fazer a economia engordar a partir de um custo de capital anoréxico.
Secos & Molhados
Medo Brasil
O diabo é que, em matéria de juros, os peritos do ramo desconversam sobre as taxas de Drácula para produção e consumo e concentram baterias na variação (ou não) da taxa básica, vulgo Selic, à direita da vírgula. Com medo do risco Brasil, o Banco Central prefere não rebaixar a Selic.
Outro furo
Com a Selic, dá-se outro diagnóstico furado. O de imaginar que ela estaria segurando a inflação pelos chifres. Ocorre que dois terços do núcleo do IPCA têm tudo a ver com os preços administrados pelo governo - fora do alcance do arrocho monetário. Além da alta do dólar, que tem algo a ver com o risco do aumento da dívida pública produzido pela não redução da Selic.
Formigas
Pretender governar o Brasil com a Selic lembra a parábola dos moicanos canadenses: formigas aboletadas em tronco que desce o rio imaginam, cada uma delas, que estão dirigindo o tronco.





