Joelmir Beting
Desemprego recorde? Se o Felipão ganhar a Copa lá no Japão, nossa pátria de chuteiras será de novo o melhor lugar do mundo.
José Maria de Jesus, vendedor de bandeiras
Dois terços submersos
Botsuana é apelido. Dois em cada três brasileiros com mais de 14 anos de idade estão alijados do mercado formal de trabalho. E a renda média mensal dos que batem ponto com salário em carteira declina silenciosamente para R$ 860. Eis aí o perímetro do nosso mercado interno de consumo. Um tigre em jaula de circo.
A informalização crescente do mercado de trabalho é o corpo do iceberg submerso sob a crista dos índices oficiais de desemprego. Pois, na ponta fora dágua, a metodologia do IBGE informa que 7,6% dos brasileiros procuraram emprego no mês passado e nada encontraram. Eles saíram para o acostamento de um PIB anual de 2%, covardemente reprimido por juros parasitas, por tributos asininos, por encargos suicidas e por lucros obscenos.
Pela metodologia do Dieese, juntando-se à revoada dos que procuram emprego a manada dos que já desistiram de procurar emprego, a desocupação aberta e/ou oculta, na soma do emprego formal com o trabalho precário, acaba de selar o recorde de 20,4%. Um em cada cinco trabalhadores. Ou eleitores.
Como desgraça pouca é frescura, a atrofia do emprego agrava a anemia do salário. No primeiro trimestre do ano, que se imaginava uma quadra de convalescença econômica, a renda real média do pessoal no batente, patrulhada mensalmente pelo IBGE, acumulou uma redução sinistra de 5,7%.
A coisa já estava malparada desde o último trimestre de 1998, reeleição de FHC. Dados oficiais indicam que o triênio 1999/2001 devorou metade do acréscimo de renda produzido pelos efeitos redistributivistas do Plano Real, entre julho de 1994 e dezembro de 1998. Segundo o Ipea, os ganhos até 1998 foram de 21,4% e as perdas de 1999/2001 cravaram 10,2%. Mais o recuo de 5,7% no primeiro trimestre deste ano.
Resultado: uma em cada duas famílias na cidade de São Paulo hospeda uma pessoa desempregada. Não está no Censo 2000 do IBGE, mas numa sondagem qualitativa de perfis de consumo da Toledo & Associados, por encomenda da Associação Comercial de São Paulo.
Enquanto isso, o mercado de trabalho, piso da afirmação do indivíduo na sociedade, resfolega no brejo da baixa apetência da política econômica, bate de frente com a destruição criadora da revolução tecnológica erradia e nômade e se deixa sabotar pela protelação geral de negócios para o famigerado depois das eleições. Até porque a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) pela primeira vez afugenta a gastança pública da raia eleitoral. Amém.
No mais, a retomada das reflexões acadêmicas sobre políticas de emprego e de renda no Brasil. Ou pior: sobre a falta dessas políticas. Há quem diga que o desemprego aberto ou oculto deixou de ser cabo eleitoral da atual oposição neokeynesiana. Parece que a tal de vulnerabilidade externa, vulgo risco Brasil, tem mais tempo e espaço nos palanques da meia dúzia de pré-candidatos que o estigma social do desemprego. Ou o trauma coletivo da violência sem paralelo nem paradeiro.
Secos & Molhados
Na lateral
De mãos atadas pelos desígnios do mercado, as centrais sindicais preferem desconversar sobre a reforma trabalhista e voltam a gastar munição por um novo corte da jornada de trabalho de 44 para 40 horas. Em nome, claro, de uma oferta maior de emprego.
Sem choro
Ora, reduzir carga horária para abrir novas vagas é expediente que só funciona em economias modernas que já esgotaram a otimização da produtividade do trabalho. Entre nós, jornada menor é um convite à automação maior. Pode até não provocar demissão, mas, aumentar o emprego, jamais.
Na sinuca
O triste é que dourar a pílula do emprego formal (que precisa realmente disso) é alargar ainda mais o fosso que o separa do trabalho precário ou informal (arrimo de dois em cada três brasileiros). Ainda estamos longe de romper as amarras de uma economia de baixa eficiência que caprichou, no século 20, em cacarejar empregos ruins com salários péssimos.





