Joelmir Beting
Quando culpamos os outros pelo nosso fracasso é honesto atribuir a eles também nosso sucesso.
Mark Twain (1835-1910), escritor americano
Espiada no Natal
O primeiro semestre já está no papo de avestruz dos cenaristas econômicos estressados, agora devidamente escoltados por astrólogos políticos ouriçados. O negócio, doravante, é adivinhar os indicadores gregorianos (de janeiro a dezembro), com ou sem essa quarta atropelada do Lula lá.
Entidades da indústria e do comércio apostam para 2002 um PIB de 2,5% com IPCA de 5,5%. Ninguém no setor produtivo acredita em Selic abaixo de 17%. Mas a bola de cristal do câmbio, até urnas em contrário, joga com mediana anual de R$ 2,55 por dólar. Ou não mais que R$ 2,60 ali pela altura do Natal.
E os que vislumbram aí pela cerração do segundo semestre os bancos brasileiros, filiados da Febraban? A entidade pesquisou 35 bancos na segunda semana de maio. Em trabalho coordenado por Roberto Luis Troster, ela flagrou a expectativa do setor para mais sete meses sem trauma nem desvio. Com Copa ou sem Copa, com Lula ou sem Lula. Com Argentina ou sem Argentina.
Para o PIB, os bancos projetam expansão pífia de 2,34%. O agropecuário vai de 3,47% e o industrial não deve passar de 2%. Em dólar corrente, o PIB 2002 seria de exatos US$ 524,5 bilhões. No caso, com câmbio médio de R$ 2,47 no ano. Ou de R$ 2,54 lá na ponta de dezembro.
Prognóstico de bancos sobre matéria cambial não pode ser menosprezado. Pela própria natureza do negócio, a confraria tem massa crítica para calibrar previsões auto-realizáveis. Eles têm mais peso sobre a flutuação do câmbio que o Banco Central ou as empresas em geral.
E a balança comercial? Para os bancos brasileiros, o embarque total não deve passar de US$ 58,8 bilhões. Na contramão de compras externas da ordem de US$ 54,4 bilhões.
Saldo de US$ 4,4 bilhões, aí pela média das apostas do mercado.
Folga que entra na refrescante redução do déficit externo em conta corrente. A pesquisa da Febraban aponta para -3,93% do PIB.
As reservas internacionais ensaiam fechar o ano em US$ 34,1 bilhões e os investimentos diretos das transnacionais podem chegar a US$ 17,4 bilhões (contra US$ 23,3 bilhões em 2001). O risco Brasil estaria acomodado, em dezembro, na marca de 757 pontos.
E os que os bancos projetam para a Selic até o último dia útil do ano financeiro? Lá na virada, 16,84%. Na média do ano, 18,04%. Para o IPCA gregoriano batendo no travessão da meta oficial: 5,46%. Ou seja: taxa básica real ainda de dois dígitos para desfrute do próximo governo (ou governante).
Secos & Molhados
Banho-maria
E qual seria o farol de milha do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que é do ramo, para esta melindrosa travessia de 2002? O PIB não deve passar de 2%, com direto a um IPCA de 5,2% e a uma Selic de 17% lá na ponta.
Meia-bomba
Na balança comercial, o Ipea está mais otimista que qualquer outra cartomancia do gênero. Ele prevê superávit de US$ 5,3 bilhões. As exportações ficarão 2,3% abaixo de 2001, mas as importações terão queda ainda maior: -7,5%. O cenário joga com câmbio, para o Natal, de R$ 2,52. No que resvala para o empate técnico com a pesquisa da Febraban: R$ 2,54.
Calmaria
E o que pensam os consumidores desta via-sacra 2002? A Associação Comercial de São Paulo sondou os prestamistas do varejo paulistano e levou um susto: as coisas tendem a melhorar, no segundo semestre, para 73% dos entrevistados. Mas 52% não pretendem fazer novas compras a prazo antes da eleição...





